Barbalha 180 anos: o que está sendo feito para salvar casarões, templos e memórias no Cariri

Barbalha, no Cariri cearense, conhecida como a terra dos verdes canaviais pelo histórico cultivo de cana-de-açúcar, celebra 180 anos nesta segunda-feira. Emancipada em 17 de agosto de 1846, a cidade busca equilibrar a preservação de sua memória com as demandas urbanas e econômicas atuais. Situado em área de clima ameno, com mananciais formados pela Chapada do Araripe, o município reúne fauna, flora e terrenos férteis que atraem visitantes de diversas regiões. O núcleo urbano nasceu em uma colina próxima ao rio Salamanca e ainda guarda paisagens e identidades materializadas, sobretudo, nos antigos casarões do centro histórico, que compõem um vasto sítio arquitetônico preservado e atraem turistas e pesquisadores com construções dos séculos 18 e 19.

Entre os marcos arquitetônicos está o antigo Casarão Hotel (ou Hotel Casarão), de 1859, inspirado nos grandes prédios de Recife. O sobrado de três andares foi erguido pelo comerciante Antônio Manuel Sampaio, dono de engenho e da primeira máquina a vapor do Cariri, que faleceu no mesmo ano em Recife e não chegou a habitar o imóvel. A edificação teve senzala no subsolo, armazéns no térreo e residência no primeiro andar, além de um túnel (“porão”) que daria acesso ao canavial em caso de invasões, como a registrada em 1914. O prédio já sediou uma escola de ensino fundamental e hoje abriga a Secretaria de Cultura do município.

O Palácio 3 de Outubro, construído durante a Grande Seca de 1877 para gerar frentes de trabalho aos retirantes, abriga atualmente a Escola de Saberes de Barbalha. Conhecido como a antiga Casa de Câmara e Cadeia, o imóvel teve no pavimento superior o paço municipal e os poderes Legislativo e Judiciário. O prédio é protegido em âmbito estadual. Segundo o coordenador municipal de Turismo, Neto Sobral, Barbalha já teve mais de 43 casarões protegidos; hoje, 38 permanecem em estado de conservação, compondo um conjunto que ajuda a contar a história local.

A arquitetura religiosa também marca a paisagem. A Igreja Matriz de Santo Antônio, considerada o marco inicial do município, começou a ser erguida por volta de 1770, passou por reformas e tornou-se paróquia em 1838. Diante da Matriz, o mastro do Pau da Bandeira é erguido todos os anos com a imagem do padroeiro, dando início aos festejos locais. Embora o templo não seja tombado, a Festa de Santo Antônio é reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. Outro destaque é a Igreja do Rosário, cuja construção começou em 1860 e foi concluída no início do século 20. Segundo o historiador Josier Ferreira da Silva, a comunidade negra, impedida de frequentar as igrejas dos colonizadores, organizou a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário para erguer seu próprio templo, consolidando o direito à sua religiosidade.

Entre as edificações comerciais históricas, a Casa Sampaio, fundada em 30 de agosto de 1847, foi por muito tempo o principal ponto de comércio da cidade. Hoje está desapropriada e fechada, mas conserva a fachada. O Solar Maria Olímpia, de 1885, é exemplar do casario do século 19 que combinava moradia no andar superior e comércio no térreo; a fachada mantém o alinhamento de portas e janelas e o prédio segue com uso comercial embaixo e espaços alugados acima, em frente à Praça Filgueira Sampaio.

Na arquitetura residencial, destaca-se a Casa de Mãe Yayá, em frente à Praça do Rosário, concluída em 1905. Com planta retangular, torre central de dupla altura e alas laterais simétricas, o imóvel tem telhado de madeira e barro com mãos-francesas e lambrequins, remetendo aos chalés do fim do século 19. Entre os elementos raros, abriga um mirante e uma cisterna para captação de água da chuva. Especialistas ressaltam que a materialidade desses imóveis — paredes mais espessas, telhados altos e aberturas sequenciais — conferia conforto ao clima do Nordeste, e muitas famílias optam por conservar as casas por vínculo afetivo e transmissão de memória às gerações seguintes.

Outro marco é o Palacete dos Alencar, de 1817, em frente à Praça da Matriz, com torre central de dupla altura ladeada por volumes simétricos e janelas alinhadas, mantendo uso residencial. Encomendado pelo padre Gregório de Sá Barreto, primeiro coadjutor da Capela de Santo Antônio, foi vendido ainda inacabado a uma família de fazendeiros por questões de saúde do religioso, que faleceu na Bahia sem ver a obra concluída. Erguido à época em tijolos crus e sem reboco, tornou-se a primeira construção monumental da então vila e segue habitado.

Apesar do acervo, Barbalha perdeu parte de sua memória edificada e enfrenta desafios para manter a história viva. Para o historiador Josier Ferreira da Silva, a falta de consciência patrimonial, tanto da população quanto de gestores, somada à ausência de políticas públicas específicas, resultou em desrespeito e depredação de bens. Ele lembra que, até a década de 1970, a economia era canavieira e agrária; com a estagnação no fim dos anos 1970, o comércio ganhou força e pressionou a estrutura urbana, levando à demolição ou reforma de sobrados e armazéns para novos usos comerciais.

A gestão municipal afirma que há intervenções em andamento para proteger o acervo. Segundo o coordenador de Turismo, está em curso a requalificação do centro histórico, com calçadas de piso intertravado e acessibilidade, além de ruas revitalizadas e novos calçamentos em alguns trechos. Há diálogo com o Iphan para o processo de tombamento do Centro Histórico de Barbalha, enquanto moradores mantêm, por iniciativa privada, casas e casarões. As ações, de acordo com o município, compõem um esforço conjunto para preservar o patrimônio local.

Fonte: G1

Source: G1

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