Um fóssil de menos de 3 centímetros, excepcionalmente preservado e batizado de Cicero spectabilis, será repatriado dos Estados Unidos para o Ceará. O exemplar, um isópode do período Cretáceo com idade estimada entre 110 e 120 milhões de anos (aproximadamente 115 milhões), foi identificado em uma coleção da Universidade de Illinois e integra uma espécie inédita descrita pela primeira vez por pesquisadores brasileiros e norte-americanos em artigo publicado em julho na Scientific Reports, do grupo Nature. A expectativa é que, ao chegar ao Brasil nos próximos meses, o fóssil passe a compor a coleção do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (MPCN), da Universidade Regional do Cariri (Urca), em Santana do Cariri.
O nome científico homenageia Cícero Romão Batista, o Padre Cícero, figura popular do Cariri. O termo spectabilis, em latim, ressalta o caráter “espetacular” do achado. Segundo os pesquisadores, o animal vivia no fundo de lagos antigos (paleolagos), processando matéria orgânica e ajudando a enriquecer o ambiente com nutrientes — função essencial na base da cadeia alimentar. Isópodes são crustáceos que existem há mais de 200 milhões de anos e hoje podem ser encontrados em água doce, salgada ou em ambientes terrestres.
De acordo com o diretor do MPCN, o paleontólogo Allysson Pinheiro, trata-se do único exemplar conhecido dessa espécie e do primeiro fóssil do tipo encontrado ao sul do Equador. A descoberta reforça conexões antigas entre o que hoje é o Brasil e regiões da Laurásia (América do Norte, Europa e grande parte da Ásia), sugerindo migrações através do antigo Mar de Tétis quando os continentes tinham outra configuração — com a América do Sul unida à África no supercontinente Gondwana.
O exemplar foi localizado em setembro de 2023 pelo pesquisador estrangeiro Arthur Anker, colaborador dos paleontólogos da Urca, dentro de uma coleção do Centro de Paleontologia da Universidade de Illinois. O curador informou que o fóssil havia sido doado por um anônimo. A equipe brasileira solicitou a devolução e o processo foi conduzido de forma cooperativa, resultando inclusive em parceria científica: um dos responsáveis pela coleção nos EUA coassinou o estudo de descrição do animal. O envio ao Brasil será feito de avião por um dos pesquisadores; não há data confirmada.
A rota de saída do Cicero spectabilis do Cariri é desconhecida. Pesquisadores afirmam que o tráfico de fósseis foi comum na região, onde peças são encontradas com frequência em pedreiras que extraem a pedra cariri, rocha calcária usada em construções. Muitos fósseis, muitas vezes pequenos e incrustados em lâminas de calcário, foram vendidos a colecionadores no exterior e em outros estados, facilitados pelo transporte discreto. No Brasil, o tráfico de fósseis é crime, com previsão de prisão e multa. Segundo Allysson Pinheiro, a fiscalização e a conscientização têm avançado.
A repatriação do Cicero spectabilis contrasta com casos mais longos e complexos, como o do dinossauro Ubirajara jubatus, devolvido da Alemanha após mais de três décadas de tratativas. Na Bacia do Araripe, que abrange áreas do Ceará, Piauí e Pernambuco, o novo fóssil soma-se a um patrimônio reconhecido pela abundância e qualidade de registros do Cretáceo, incluindo dinossauros, peixes, insetos e sítios com arte rupestre. A preservação do Cicero spectabilis — um exemplar minúsculo, frágil e incrustado em rocha com cerca de 3 centímetros — é considerada rara e permitiu análises detalhadas da morfologia.
A equipe justifica a homenagem a Padre Cícero pelo papel “pequeno, porém fundamental” do isópode na sustentação do ecossistema antigo. Para os pesquisadores, o retorno do material ao Cariri permitirá novas pesquisas e a formação de futuros paleontólogos na região. “É uma espécie nova, com um único exemplar conhecido, e fará parte da coleção do nosso museu”, resume Pinheiro.
Fonte: G1 Globo
Source: G1 Globo

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