Operação da PF mira editoras no Ceará e aponta conexões com emendas de Mário Frias e filme “Dark Horse”

A Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (10), investiga possíveis desvios de recursos de emendas parlamentares e revelou conexões entre distribuidoras de livros didáticos, o deputado federal Mário Frias (PL-SP) e empresas e entidades ligadas ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Parte das empresas investigadas está localizada em Fortaleza e foi alvo de mandados de busca e apreensão. O cearense Dayvid Moreira Medeiros, proprietário de editoras sediadas em São Paulo, também foi alvo da operação, assim como suas empresas.

No centro da investigação está o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme “Dark Horse”. Segundo a PF, o instituto firmava contratos com órgãos públicos para executar projetos sociais e, posteriormente, subcontratava empresas para realizar as atividades. Os investigadores descrevem alguns desses procedimentos como suspeitos ou fraudulentos.

Entre as empresas apontadas como suspeitas estão a HD Cultural e a Dinâmica Editora, ambas ligadas a Dayvid Medeiros.

De acordo com a decisão judicial que autorizou a operação, os recursos de emendas parlamentares destinadas por Mário Frias percorreriam um “circuito fechado” entre as empresas investigadas. O objetivo, segundo o documento, seria fragmentar os repasses e dificultar o rastreamento do dinheiro.

Dos 49 mandados de busca e apreensão cumpridos na Operação Make Up, sete foram realizados no Ceará, nos municípios de Fortaleza e Aquiraz. Os alvos foram endereços ligados a editoras e a seus sócios-proprietários, a maioria deles familiares de Dayvid Moreira Medeiros.

A PF também cumpriu mandados contra Dayvid, descrito pelos investigadores como uma “figura central do grupo editorial” contratado pelo ICB. As empresas dele, a HD Cultural e a Dinâmica Editora, têm sede em Rio Claro (SP). Não foi possível confirmar se os mandados contra o empresário foram cumpridos no Ceará ou em São Paulo.

A investigação apura possíveis desvios de recursos de emendas parlamentares para pessoas relacionadas a Mário Frias e para empresas ou entidades ligadas a elas. Em 2025, o ICB recebeu R$ 2 milhões provenientes de duas emendas destinadas pelo deputado para executar projetos de educação digital e esportes de combate em Pirassununga (SP).

Segundo a PF, o instituto subcontratou empresas para realizar os projetos, que não teriam sido concluídos integralmente. Em uma dessas iniciativas, a Dinâmica Editora recebeu R$ 400 mil. O material teria sido produzido pela HD Cultural, também pertencente a Dayvid, mas o projeto não teria sido executado pelo ICB.

A Cometa Livraria, que funciona no mesmo endereço da antiga empresa de Dayvid e de seu irmão Dawyson, teria participado da pesquisa de preços que levou à contratação da Dinâmica Editora. Para a PF, a concorrência teria sido fraudulenta.

“São fortes, portanto, os indícios de que houve montagem na pesquisa de preço, que já se encontrava, desde o início, direcionada para a contratação da Dinâmica Editora”, afirmou a Polícia Federal em documento obtido pelo g1.

O papel da Mecla Soluções Editoriais no suposto esquema não foi detalhado no documento consultado pela reportagem. A PF, contudo, destacou que a empresa movimentou dezenas de milhões de reais em alguns meses, principalmente em transações com a Cometa Livraria.

A decisão judicial também não esclarece se Dayvid ou Dawyson Medeiros tinham relação direta com Mário Frias. Dayvid, no entanto, foi sócio de Heric Fabiano Dias, proprietário da NTT Brasil. Essa empresa transferiu R$ 750 mil para a produtora do filme “Dark Horse”.

Heric é irmão de Pamella Cristiane Dias, proprietária do Instituto Super Poder Educacional. Tanto Pamella quanto o instituto foram alvos da operação. Ela também ocupa o cargo de coordenadora editorial da HD Cultural, empresa de Dayvid e da qual Heric foi sócio.

Ao autorizar a Operação Make Up e os mandados de busca e apreensão, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino proibiu as empresas HD Cultural, Dinâmica Editora, Cometa Livraria, Mecla Soluções Editoriais, Instituto Super Poder Educacional e NTT Brasil de participar de licitações envolvendo órgãos públicos.

O g1 procurou Dayvid Medeiros, Dawyson Medeiros, Georgia Helena, a Mecla Soluções Editoriais e a HD Cultural para que comentassem a operação. Até a publicação da reportagem, não houve resposta. Ana Patrícia Aguiar e a Cometa Livraria não foram localizadas. A reportagem informou que será atualizada caso os investigados se manifestem.

Projeto Jovem Empreendedor

Em fevereiro de 2025, o projeto Jovem Empreendedor, do ICB, recebeu R$ 1 milhão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por meio de uma emenda parlamentar indicada por Mário Frias. O objetivo era desenvolver materiais educativos para 2.250 estudantes de escolas públicas e capacitar 250 multiplicadores.

Os livros encomendados às editoras foram entregues, mas, segundo a investigação, o projeto não foi executado. A iniciativa estava prevista para Pirassununga, no interior de São Paulo.

O ICB contratou uma empresa para fornecer um kit pedagógico com três livros didáticos. Seriam produzidos 2.500 kits, ao custo de R$ 400 mil. A Dinâmica Editora, de Dayvid Medeiros, foi contratada para executar essa etapa.

Segundo a PF, a empresa participou de uma licitação simulada organizada pelo ICB, na qual as demais concorrentes também teriam ligação com Dayvid. Ao final, a Dinâmica foi selecionada, mas o material acabou sendo produzido pela HD Cultural.

Uma nota fiscal foi emitida em fevereiro de 2025, mas os livros só foram entregues em junho de 2026, mais de 465 dias depois da emissão, após o ICB ser cobrado pelo ministério. O prazo de execução do projeto havia terminado em janeiro de 2026, e o público-alvo não recebeu o material, conforme a investigação.

O mesmo projeto previa R$ 300 mil para a produção de um kit pedagógico digital. Nessa contratação, foi escolhido o Instituto Super Poder Educacional, cujo endereço registrado no CNPJ corresponde ao de uma loja de roupas em Guarulhos (SP).

A empresa recebeu R$ 300 mil e entregou dez videoaulas em uma plataforma on-line. Juntos, os vídeos acumulavam sete visualizações, número considerado incompatível pela investigação com a meta de alcançar 2.500 pessoas.

Movimentações da Cometa Livraria

A Cometa Livraria, localizada no bairro Quintino Cunha, em Fortaleza, foi criada em 2022. De acordo com a PF, desde então a microempresa recebeu mais de R$ 36 milhões em recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Entre maio de 2025 e abril de 2026, a empresa recebeu e, posteriormente, transferiu mais de R$ 28 milhões. Segundo a PF, a maior parte dos recursos teve origem em contratos com prefeituras e secretarias de Educação do Nordeste. No documento analisado pelo g1, a Polícia Federal não apresentou indícios de ilegalidade nesses contratos.

A PF também não apontou ilegalidade nas transferências, mas chamou atenção para o volume de saques em espécie, muitos deles no valor de R$ 49.991. A quantia fica abaixo de R$ 50 mil, limite cuja movimentação pode gerar comunicação às autoridades monetárias.

Somente em março de 2026, foram realizados 11 saques que totalizaram R$ 549 mil. Para a PF, as operações são indícios de uma possível tentativa de burlar sistemas de controle. Os investigadores afirmaram ainda que o período dos saques é compatível com os fatos apurados, mas não esclareceram se o dinheiro tinha relação direta com as suspeitas de desvio de emendas destinadas por Mário Frias.

Conexão com o filme “Dark Horse”

A PF identificou uma possível conexão indireta entre recursos relacionados ao ICB, empresas vinculadas ao grupo empresarial de Heric Dias, a NTT Brasil e a Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A Dinâmica Editora e o Instituto Super Poder Educacional são apontados como integrantes de um mesmo grupo empresarial. A Dinâmica pertence a Dayvid Medeiros, enquanto o instituto está em nome de Pamella Cristiane Dias, apresentada também como coordenadora editorial da HD Cultural.

As duas empresas receberam cerca de R$ 700 mil do ICB. Posteriormente, a NTT Brasil, administrada por Heric Dias, que já foi sócio de Dayvid, transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment, no mesmo período em que o filme estava sendo produzido.

A própria Polícia Federal ressalvou que os elementos disponíveis não permitem afirmar que os R$ 750 mil transferidos pela NTT Brasil tenham origem direta nos recursos recebidos pelo ICB. Para os investigadores, porém, a coincidência entre os valores e a proximidade temporal das operações são circunstâncias relevantes para a análise financeira.

Fonte: G1

Source: G1

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