Vídeo registra óleo a 40 m em busca de água no CE; ANP investiga achado ‘pouco comum’

Um vídeo gravado pela família do agricultor Sidrônio Moreira, em novembro de 2024, mostra o momento em que um líquido escuro emerge durante a perfuração de um poço de aproximadamente 40 metros em Tabuleiro do Norte (CE). A profundidade é considerada geologicamente rasa e pouco comum para a presença de óleo, segundo especialistas. Testes iniciais indicam características físico-químicas semelhantes às do petróleo extraído em jazidas do Rio Grande do Norte, mas a confirmação oficial depende de análise por laboratório credenciado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que abriu investigação sobre o caso.

“É um achado pouco comum devido à profundidade do reservatório em que foi encontrado óleo, pouquíssimo comum”, afirmou o professor de Engenharia Química Hosiberto Batista, da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele coordena o Grupo de Pesquisa em Termofluidodinâmica Aplicada, que recebeu uma amostra do material e fará testes complementares para determinar sua natureza.

A substância foi encontrada na localidade de Sítio Santo Estevão, cerca de 35 quilômetros da sede de Tabuleiro do Norte e a apenas 11 quilômetros de um campo de exploração de petróleo no Rio Grande do Norte, próximo à Bacia Potiguar, região tradicional na extração do combustível. “Foi [um achado] não usual porque é um lote, é uma região, inclusive, que não estava nem catalogada pela ANP para futuras licitações de região offshore. Então, foi um achado, assim, extraordinário sobre esse ponto de vista. Sobretudo, porque foi uma baixíssima profundidade”, acrescentou Hosiberto. Até o momento, não há análises sísmicas da ANP para Tabuleiro do Norte, estudo necessário para dimensionar o tamanho do reservatório e sua viabilidade econômica.

Em junho de 2025, Saullo Moreira, filho de Sidrônio, procurou o Instituto Federal do Ceará (IFCE) em Tabuleiro do Norte e conversou com o engenheiro químico Adriano Lima, agente de inovação do campus para o Vale do Jaguaribe. Uma amostra do líquido foi levada ao Núcleo de Pesquisa em Baixo Carbono da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró (RN), onde passou por análises físico-químicas. A família e o IFCE comunicaram a descoberta à ANP em julho de 2025. Meses depois, em 25 de fevereiro deste ano, a agência confirmou ao g1 que recebeu o aviso e que investigará o caso, informando que pretende contatar a Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Sema) para acompanhar a situação, avaliar a necessidade de vistoria técnica in loco e orientar o proprietário sobre procedimentos ambientais. A Sema, porém, disse que ainda não foi notificada.

A residência de Sidrônio não possui água encanada. Embora abastecida por uma adutora municipal, a água chega de forma intermitente e, muitas vezes, não cobre o mês. Para suprir a demanda, a família recorre a carro-pipa para consumo doméstico e dos animais. Em 2024, o agricultor contraiu um empréstimo e usou parte das economias para perfurar um poço em busca de água. Ao atingir quase 40 metros, surgiu o líquido escuro — inicialmente comemorado como se fosse água. Depois que a perfuração cessou, não houve produção de água. A família ainda perfurou um segundo poço, mais raso, também sem sucesso.

Enquanto aguarda o resultado das análises em laboratório credenciado pela ANP, a prioridade de Sidrônio segue sendo a água. “Eu tinha vontade que eles viessem aqui ver isso aí e continuassem, para ver se dava alguma coisa. Qualquer coisa que desse aí servia para a gente, porque é uma calamidade muito grande de água aqui”, disse. Especialistas alertaram a família de que perfurações incorretas podem provocar vazamento de óleo para o lençol freático, com risco de contaminação da água e impactos ambientais.

Segundo IFCE e Ufersa, o material coletado é um hidrocarboneto com densidade, viscosidade, cor e odor similares ao petróleo das redondezas. Ainda assim, apenas uma análise realizada por laboratório credenciado pela ANP poderá confirmar se se trata efetivamente de petróleo. A identificação de um hidrocarboneto não significa a confirmação de uma jazida nem de viabilidade econômica — quantidade, qualidade e potencial de exploração permanecem desconhecidos.

Caso a substância seja confirmada e as jazidas sejam delimitadas, a ANP pode dividir a área em blocos de exploração e leiloá-los a empresas interessadas. Mesmo áreas mapeadas e liberadas podem não atrair investimentos por fatores como tamanho reduzido do reservatório, dificuldade de extração, custos de instalação ou baixa qualidade do óleo, que eleva despesas no refino. Um infográfico produzido pelo g1 ilustra a possível descoberta em Tabuleiro do Norte.

Fonte: G1 Globo

Source: G1 Globo

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