As eleições de 2026 reabrem a disputa pública entre os irmãos Cid e Ciro Gomes. O senador Cid foi confirmado nesta terça-feira (14) como pré-candidato ao Senado; o deputado federal Junior Mano (PSB), expulso do PL, será o 1º suplente. A chapa tem apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro lado, Ciro lançou em maio a pré-candidatura ao governo do Ceará, com apoio de lideranças de direita e opositoras do PT, como o deputado federal André Fernandes e o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, ambos do PL.
A rixa veio a público em 2022, após o fim da aliança de 16 anos entre PT e PDT no Ceará — costurada pelos próprios irmãos. Segundo Cid, eles não se falam desde agosto daquele ano. A disputa municipal de 2024, sobretudo em Fortaleza, aprofundou o rompimento: o ex-prefeito Roberto Claudio declarou apoio a André Fernandes no segundo turno, enquanto Evandro Leitão — recém-chegado ao PT após anos no PDT — venceu a eleição.
Hoje, Roberto Claudio, que deixou o PDT, preside o União Brasil em Fortaleza, é vice-presidente da Federação PP/União no Ceará e é cotado para vice na chapa de Ciro ao governo. O presidente da federação no estado é o bolsonarista Capitão Wagner (União), provável candidato ao Senado apoiado por Ciro.
Ciro e Cid projetaram o clã Ferreira Gomes no cenário estadual. Ciro, então deputado estadual, foi eleito prefeito de Fortaleza em 1988; em 1990, venceu para o governo do Ceará, exercendo o mandato de 1991 a 1994, quando assumiu o Ministério da Fazenda no governo Itamar Franco. A família, tradicional na política de Sobral — onde o pai de ambos foi prefeito —, ganhou alcance estadual. À época, Ciro integrava o grupo do ex-senador Tasso Jereissati (PSDB); em 2006, os Ferreira Gomes romperam com Tasso e lançaram Cid ao governo.
Cid foi deputado estadual a partir de 1991 e prefeito de Sobral em 1996 e 2000. Em 2006, derrotou o então governador Lúcio Alcântara (PSDB) com 62% dos votos e consolidou o grupo como principal força do estado, construindo maioria na Assembleia, reunindo ampla base com vários partidos — inclusive o PT — e atraindo dezenas de prefeitos. “Cid sempre foi a figura de lidar com os prefeitos e Ciro sempre foi a liderança de pensar o grupo em termos de projeto… o líder intelectual do grupo”, descreve o cientista político Clayton Monte.
Dos cinco irmãos — Ivo, Ciro, Lia, Lúcio e Cid —, quatro exerceram mandatos. Ivo foi deputado estadual, chefiou o gabinete de Cid e, em 2016, elegeu-se prefeito de Sobral. Lia foi secretária e, desde 2022, é deputada estadual.
Em 2012, o grupo lançou Roberto Claudio à Prefeitura de Fortaleza, então ocupada por Luizianne Lins; ele venceu Elmano de Freitas e gerou atrito com o diretório municipal do PT, mantendo, porém, a aliança em nível estadual. Para a sucessão de Cid, o escolhido veio do PT: Camilo Santana, ex-secretário de governo. Após deixar o secretariado para se reeleger deputado estadual em 2010, Camilo disputou o governo em 2014 e venceu com 53%.
Em 2022, a coesão do grupo ruiu na escolha do sucessor de Camilo. Bem avaliado, Camilo deixou o governo em abril para concorrer ao Senado; sua vice, Izolda Cela, assumiu o cargo. Com trajetória ligada à educação em Sobral — onde foi peça-chave na transformação do ensino —, Izolda chefiou a Secretaria Estadual de Educação entre 2007 e 2014 e, então no PDT, era apontada como candidata natural à reeleição, em uma aliança PT-PDT até então dada como certa.
Com a disputa presidencial em curso, o PDT cearense decidiu entre Izolda e Roberto Claudio. Em 18 de julho de 2022, o diretório escolheu Roberto por 54 votos a 29. Ciro e Lia defendiam Roberto; Camilo, Cid e Ivo apoiavam Izolda. Cid evitou confrontar Ciro publicamente, mas, após a decisão, o grupo se dividiu — e os irmãos se romperam. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, criticou: “Não entendo por que a Izolda não podia ser candidata à reeleição, estando no cargo e bem-posicionada nas pesquisas. Nós tínhamos o compromisso de apoiar”.
Roberto Claudio foi lançado em evento em Fortaleza com Ciro no palanque; Cid e Ivo não compareceram. No mesmo dia, Camilo publicou foto com Cid e Izolda, escrevendo: “Amigos que a vida me deu e que ninguém separa. Respeito, carinho e união sempre”. Horas depois, o PT confirmou Elmano de Freitas para o governo, formalizando duas candidaturas rivais após mais de uma década de aliança. Cid e Ivo não participaram da campanha de Roberto; em agosto de 2022, Ivo afirmou nas redes que Cid não o apoiava. Ciro reagiu: “Recebi uma facada poderosa nas costas… Resolvi não ir ao meu Estado pela primeira vez. Que o cearense diga lá o que quer fazer de mim”.
Em 2018, Ciro foi o mais votado no Ceará no 1º turno da disputa presidencial. Em 2022, ficou em terceiro no estado; Roberto Claudio também terminou em terceiro para o governo, e Elmano venceu no 1º turno. Desde então, Cid e Elmano mantêm bom relacionamento.
No PDT cearense, o racha se prolongou entre alas lideradas por Cid e por André Figueiredo, aliado de Ciro. Enquanto Cid defendia retomar a aliança com o PT e apoiar o governador Elmano — em sintonia com a participação de Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, no governo Lula —, André pregava independência em relação ao Palácio da Abolição. Em junho de 2023, um evento regional do PDT com Ciro escancarou a divisão: Cid e seus aliados não compareceram. Em 2024, Cid deixou o PDT e se filiou ao PSDB. Em outubro de 2025, Ciro também saiu do PDT e, cinco dias depois, filiou-se ao PSDB.
Agora, às vésperas de 2026, Cid busca novo mandato no Senado com apoio de Lula e Junior Mano (PSB) como 1º suplente; Ciro tenta voltar ao Palácio da Abolição após 32 anos, amparado por lideranças do PL e por aliados como Roberto Claudio e Capitão Wagner.
Fonte: G1
Source: G1









