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  • Caso Ana Clara: áudios revelam “submissão pela violência” e ordem de matar; polícia vê premeditação

    Caso Ana Clara: áudios revelam “submissão pela violência” e ordem de matar; polícia vê premeditação

    A Polícia Civil do Ceará concluiu, a partir da análise de áudios e vídeos obtidos com quebra de sigilo telefônico autorizada pela Justiça, que os irmãos Ronivaldo Rocha, 40 anos, e Evangelista Rocha, 34 anos, viam a violência como forma de impor “submissão e respeito” à vítima Ana Clara de Oliveira, 21 anos. O inquérito aponta que Ronivaldo nutria sentimento de objetificação e posse sobre a companheira, tratando-a como “extensão de sua vontade e domínio” e não admitindo resistência, em um contexto contínuo de violência doméstica.

    Segundo a investigação, na noite de 1º de maio, horas antes do crime, o casal ingeriu bebida alcoólica e discutiu. Em determinado momento, Ana Clara teria acertado com uma pedra o carro de Ronivaldo. Câmeras de segurança registraram a discussão na rua e o momento em que ele corre atrás da jovem, desiste e vai embora. Cerca de 20 minutos depois, ele retorna de carro com o irmão Evangelista, que sobe o muro da casa. As imagens mostram Ronivaldo entregando uma foice a Evangelista, que se aproxima da janela, pede para Ana Clara abrir para conversar e, ao entrar, inicia os ataques.

    De acordo com o inquérito, ao deixar o local com a foice, Evangelista é questionado por Ronivaldo: “Tu matou?”. Ele responde: “Sim, já era”. Na sequência, o mais velho diz: “não era pra ter feito isso não, macho” e “tu acabou com a nossa vida”, e o irmão rebate: “tu que mandou, já era”. Para os investigadores, os áudios e vídeos evidenciam a naturalização da violência, ausência de arrependimento e o retorno dos dois à residência com “inequívoco propósito feminicida” e clara premeditação. A polícia também cita gritos de Ronivaldo durante a ação: “Pode matar ela, pode matar”.

    Ana Clara teve as mãos decepadas e sofreu cortes profundos em ombro, perna e cotovelo. Ela foi socorrida após vizinhos ouvirem pedidos de ajuda e acionarem polícia e ambulância. No Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, passou por uma cirurgia de emergência de 12 horas para reimplante de uma das mãos, com atuação de cerca de 15 profissionais, incluindo equipes de microcirurgia e cirurgia da mão. O procedimento foi considerado bem-sucedido, e o fluxo sanguíneo foi restabelecido. Sete dias após o reimplante, ela deixou a UTI e foi para a enfermaria. No sábado (9), precisou de nova cirurgia após a equipe constatar ausência de fluxo sanguíneo no dedo mindinho da mão esquerda reimplantada. Na segunda-feira (11), foi submetida a procedimento programado para recuperação do tendão da perna, também lesionado. A paciente segue em observação para avaliar necessidade de enxertos de pele em áreas com necrose e deverá realizar fisioterapia para recuperação total.

    Embora os golpes de foice tenham sido desferidos por Evangelista, a Delegacia Municipal de Quixeramobim sustenta que Ronivaldo é coautor da tentativa de feminicídio por ter buscado o irmão, entregue a arma e incentivado os ataques. A polícia indiciou os dois por feminicídio tentado, com agravantes de meio cruel (foice) e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima. O indiciamento foi encaminhado ao Ministério Público do Ceará (MPCE), que poderá oferecer denúncia.

    Nos depoimentos, aos quais a reportagem teve acesso, Evangelista confessou o crime, afirmou que foi chamado por Ronivaldo para “conversar” e disse ter levado a foice por conta própria, pois “já estava na maldade”. Ele relatou ter sido influenciado pelos gritos do irmão e afirmou que deixou o local acreditando que a vítima havia morrido. Já Ronivaldo declarou que discutiu com Ana Clara por supostas transferências bancárias dela da conta dele para a dela, motivo pelo qual a chamou de “ladrona” em vídeo. Ele alegou ter ingerido álcool, disse não lembrar de grande parte dos fatos, negou ter combinado previamente a mutilação, afirmou não recordar quando o irmão apareceu com a foice e disse não lembrar de ter gritado “pode matar ela” — fala captada por câmeras. As imagens, porém, mostram Ronivaldo entregando a arma a Evangelista. Os dois estão presos desde a data do crime.

    Fonte: G1 Globo

    Source: G1 Globo