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  • Após 28 dias internada, Ana Clara deixa hospital no Ceará e promete ser voz de vítimas de violência doméstica

    Após 28 dias internada, Ana Clara deixa hospital no Ceará e promete ser voz de vítimas de violência doméstica

    A jovem Ana Clara Antero de Oliveira, 21 anos, deixou nesta sexta-feira (29) o Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, após 28 dias internada, e afirmou que pretende usar sua experiência para representar e ajudar mulheres vítimas de violência doméstica. Ela teve uma mão decepada e a outra semimutilada em uma tentativa de feminicídio ocorrida em 1º de maio, em Quixeramobim, no Sertão Central do Ceará. “Eu já estou saindo daqui sendo uma voz para as mulheres. Eu hoje, Ana Clara, posso dizer que estou aqui para ajudar todas vocês, e eu vou ser uma voz para vocês”, disse na saída do hospital, quando foi aplaudida por profissionais da unidade e acompanhantes.

    Segundo a vítima, os irmãos Evangelista Rocha dos Santos, 34 anos, e Ronivaldo Rocha dos Santos, 40 anos — cunhado e ex-namorado, respectivamente —, estão presos e se tornaram réus por tentativa de feminicídio. O Ministério Público do Ceará (MPCE) pediu que ambos paguem uma indenização de R$ 97 mil, valor sujeito a alteração judicial. De acordo com o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), a denúncia foi aceita no dia 14, na 1ª Vara de Quixeramobim, e o processo tramita em segredo de Justiça. Não há prazo para o julgamento.

    Ana Clara cursava o 4º semestre de Nutrição e relata que abandonou os estudos e deixou de frequentar a academia, atividade de que gostava, para tentar evitar conflitos com o então companheiro. Ela afirma que, ao longo do relacionamento iniciado há pouco menos de dois anos, Ronivaldo passou a apresentar agressividade motivada por ciúmes ou irritação. Antes de decidir morar com ele, diz ter sido agredida quando tentou impedir que o namorado, que atuaria como agiota, cobrasse a dívida de uma mulher grávida. Nos meses anteriores ao crime, as agressões teriam se intensificado; segundo a jovem, ele batia em suas pernas com um copo térmico usado por ela para ir à academia.

    Na noite do ataque, o casal havia saído para beber na casa de um amigo de Ronivaldo e depois foi a um restaurante. A jovem afirma que o ex-namorado se irritou quando ela quis voltar para casa por considerar que já tinha bebido o suficiente. A discussão continuou no carro. Em meio ao desentendimento, ela arremessou uma pedra contra o veículo. Em outras ocasiões, diz, ele costumava se afastar por um tempo. Desta vez, porém, ela relata que ele chamou o irmão. Conforme o relato, Ronivaldo permaneceu em cima do carro enquanto Evangelista pulou o muro da residência e pediu que ela abrisse a porta; a vítima disse não ter percebido que ele portava uma foice.

    Durante o ataque, Ana Clara fingiu estar morta para interromper a agressão e afirmou ter permanecido consciente até a cirurgia. Sozinha em casa e sem conseguir manusear o celular, gritou por ajuda. Ela destacou a agilidade dos socorristas na preservação de uma das mãos para o reimplante. Desde a internação, passou por três cirurgias: reimplante das mãos, recomposição de um tendão da perna e substituição de uma artéria em um dos braços. Quinze dias após um procedimento de 12 horas, voltou a mover os dedos gradualmente e aprendeu a usar o celular com os pés, habilidade que lhe permite acessar as redes sociais, onde reúne mais de 30 mil seguidores. No IJF, ela recebeu atendimento multidisciplinar, com psicólogos e assistentes sociais, e iniciou, no dia 15, as primeiras sessões de fisioterapia e terapia ocupacional. Ao acordar após o reimplante, disse ter sentido gratidão pelo trabalho médico e confessou temer ficar sem as mãos.

    A jovem também contou que sonha em retomar os movimentos para voltar a se comunicar em Libras com a mãe, que é surda. A impossibilidade temporária de fazer os sinais, afirma, a entristece, mas a família tem auxiliado no diálogo com a mãe.

    Evangelista foi preso em uma casa em Quixeramobim, onde a polícia apreendeu uma foice, roupas e um chinelo com manchas de sangue. Ronivaldo foi localizado e detido na residência de familiares em Madalena. O pai dos investigados, Raimundo Nonato Acioli dos Santos, indicou aos policiais possíveis endereços dos filhos após tomar conhecimento do crime. Em depoimento, relatou ter recebido mensagens de Ronivaldo afirmando que Evangelista havia matado Ana Clara. Segundo os registros, Ronivaldo tem antecedentes por lesão corporal e ameaça no contexto de violência doméstica, crime contra a economia popular (agiotagem) e porte ilegal de arma de fogo; Evangelista não possuía antecedentes.

    Fonte: G1

    Source: G1