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  • ‘Tu matou?’: diálogos indicam suposta agiotagem e tráfico entre irmãos indiciados por decepar mãos de jovem

    ‘Tu matou?’: diálogos indicam suposta agiotagem e tráfico entre irmãos indiciados por decepar mãos de jovem

    Diálogos obtidos pela Polícia Civil após a quebra de sigilo telefônico indicam que os irmãos Ronivaldo Rocha dos Santos, 40, e Evangelista Rocha dos Santos, 34, presos por decepar as mãos da jovem Ana Clara de Oliveira, são suspeitos de outros crimes, como agiotagem, extorsão e tráfico de drogas. Ambos foram indiciados por tentativa de feminicídio. As investigações sobre os supostos delitos financeiros e de entorpecentes ocorrerão em inquéritos separados, por não terem relação direta com o ataque.

    O crime aconteceu na madrugada de 1º de maio, em Quixeramobim (CE). Ronivaldo e Ana Clara, que mantinham relacionamento havia cerca de dois anos, discutiram após ingerirem bebida alcoólica. Em meio ao conflito, imagens de câmeras de segurança registraram Ronivaldo correndo atrás da jovem na rua. Ele deixou o local e retornou cerca de 20 minutos depois com o irmão, Evangelista. Segundo o inquérito, Ronivaldo entregou uma foice a Evangelista, que pulou o muro da residência, abordou a vítima pela janela e iniciou os golpes.

    Conforme os autos, o primeiro golpe decepou a mão direita da vítima, enquanto os seguintes deixaram a mão esquerda semi-amputada e causaram cortes profundos no ombro, perna e cotovelo. Vizinhos ouviram os pedidos de socorro e acionaram a polícia e o resgate. Ana Clara foi submetida a cirurgia de emergência para reimplante das mãos ainda na sexta-feira (1º) e permanece em recuperação.

    As mensagens analisadas mostram que os irmãos colaboravam em um esquema de agiotagem: Ronivaldo atuaria como credor e Evangelista, em algumas ocasiões, como cobrador. A polícia encontrou com Ronivaldo um acordo com lista de devedores. Em cobranças com juros abusivos, ele chegou a orientar um devedor a vender um notebook para quitar valores, prática que configura crime contra a economia popular.

    No celular de Evangelista, foram localizadas conversas com pessoas que buscavam comprar cocaína e maconha, inclusive com envio de comprovantes de transferências bancárias. Embora as mensagens sugiram envolvimento com o tráfico de drogas, o inquérito ressalta que não está claro o papel dele (fornecimento, intermediação) nem se as transações foram concluídas. A Polícia Civil descreveu o diálogo como compatível com prática recorrente no tráfico: entrega sob demanda, para reduzir risco de flagrante com grande quantidade de entorpecentes ou dinheiro em espécie.

    Em outro trecho, os irmãos discutem a possibilidade de fugir após o crime: ‘Tenho que sumir do mapa’. As câmeras também captaram o momento em que, ao deixar a casa com a foice, Evangelista é questionado por Ronivaldo: ‘Tu matou?’; ele responde: ‘Sim, já era’. Na sequência, Ronivaldo diz: ‘não era pra ter feito isso não, macho’ e ‘tu acabou com a nossa vida’, ao que Evangelista rebate: ‘tu que mandou, já era’. De acordo com a polícia, mesmo acreditando na morte da vítima, não houve demonstrações de arrependimento, pedido de socorro ou preocupação com a integridade física de Ana Clara.

    A Delegacia Municipal de Quixeramobim sustenta que o retorno de Ronivaldo à casa, na companhia de Evangelista, teve propósito feminicida e premeditação criminosa. Para os investigadores, os gritos de ordem atribuídos a Ronivaldo (‘Pode matar ela, pode matar’) evidenciam participação ativa como mandante. Os dois foram indiciados por feminicídio tentado, com agravantes de uso de meio cruel (foice) e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima. O indiciamento segue para análise do Ministério Público do Ceará (MPCE), que poderá apresentar denúncia.

    Ronivaldo tem antecedentes por lesão corporal e ameaça no contexto de violência doméstica, crime contra a economia popular (agiotagem) e porte ilegal de arma de fogo. Evangelista não possuía antecedentes.

    Em depoimentos aos investigadores, Evangelista confessou o ataque e disse que levou a foice por conta própria, afirmando que ‘já estava na maldade’. Declarou ainda que os gritos do irmão o influenciaram a golpear a vítima e que deixou o local acreditando que ela havia morrido. Já Ronivaldo alegou ter consumido álcool, disse não se lembrar de grande parte dos fatos e afirmou que a discussão começou por causa de transferências bancárias da sua conta para a de Ana Clara; em vídeos, ele aparece chamando a jovem de ‘ladrona’.

    Desde o ataque, Ana Clara está internada no Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza. Na sexta-feira (1º), passou por uma cirurgia de 12 horas para reimplante das mãos, com cerca de 15 profissionais, incluindo equipes de microcirurgia e cirurgia da mão. O procedimento foi considerado bem-sucedido, com restabelecimento do fluxo sanguíneo. Sete dias depois, ela deixou a UTI e foi para a enfermaria. No sábado (9), foi necessária nova cirurgia após constatação de ausência de fluxo sanguíneo no dedo mínimo da mão esquerda reimplantada, em procedimento de cerca de 8 horas. Nesta segunda (11), passou por cirurgia programada para recuperação do tendão da perna, também lesionado. A equipe médica manterá observação para avaliar a necessidade de enxertos de pele em áreas com necrose. A jovem já apresentou alguns movimentos e deverá realizar fisioterapia para plena recuperação.

    Fonte: G1

    Source: G1