Relatório final da Polícia Civil aponta que Antoneudo Ribeiro Lima Júnior é o principal suspeito de atirar na cabeça do soldado Raphael Sampaio de Silva e, em seguida, incendiar o carro com o corpo da vítima. Ele e a esposa, a policial militar Júlia Natália Girão, foram indiciados por homicídio qualificado e permanecem presos preventivamente. Segundo o documento, os disparos atingiram predominantemente a região posterior do crânio de Raphael, sugerindo que o atirador estava atrás e ligeiramente à esquerda da vítima.
Os investigadores basearam a conclusão em imagens de videomonitoramento, sistemas de leitura de placas, depoimentos, laudos periciais e confronto das versões apresentadas pelos envolvidos. Vídeos mostram o carro de Raphael, que havia saído do 16º Batalhão da PM na madrugada do crime, estacionando na rua onde moram Júlia e Antoneudo. Em seguida, um Chevrolet Prisma, atribuído a Antoneudo, para atrás do veículo da vítima; instantes depois, três clarões são captados pelas câmeras, interpretados como disparos de arma de fogo.
O corpo de Raphael foi encontrado carbonizado dentro do próprio Hyundai I30 em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza. Registros de câmera situaram o Prisma de Antoneudo a apenas 226 metros do ponto da carbonização. Exame papiloscópico identificou impressões digitais de Antoneudo no interior do Prisma. Além disso, um exame de lesão corporal constatou queimadura de segundo grau no punho dele, compatível, segundo a perícia, com participação direta na ação de atear fogo ao veículo e ao cadáver. No I30, a perícia localizou uma algema no banco traseiro e um recipiente com gasolina foi encontrado nas proximidades.
A Justiça negou habeas corpus solicitado pela defesa de Júlia Natália. A desembargadora Andréa Mendes Bezerra Delfino destacou a gravidade do comportamento atribuído à policial, que, segundo os indícios, incluiria a destruição do cadáver e a criação de circunstâncias artificiais para afastar suspeitas. O pedido de substituição da prisão preventiva por domiciliar, com base no fato de ela ser mãe de uma criança de 4 anos, também foi rejeitado; a magistrada ressaltou que o benefício não é automático e é inaplicável em crimes praticados com violência, como o homicídio.
Para a Polícia Civil, há indícios de atuação conjunta e consciente do casal, com divisão de tarefas. O inquérito afirma que Júlia insistiu para trabalhar no mesmo plantão de Raphael — inclusive oferecendo R$ 50 para trocar a escala com outra agente —, deixou o batalhão com ele e o acompanhou até as proximidades de sua casa. Após o crime, apresentou a versão de que teria sido sequestrada por terceiros, enquanto as câmeras a mostravam em deslocamentos na cidade. Ela foi vista usando um vestido rosa pela manhã e não explicou quando teria retirado a farda com a qual deixou o serviço.
A investigação aponta motivação passional: Raphael e Júlia, ambos casados, mantinham um relacionamento extraconjugal. Testemunhas relataram que Antoneudo sabia do caso e demonstrava intenso ciúme. Na véspera do homicídio, Raphael teria dito a uma pessoa próxima que pretendia assumir publicamente o relacionamento com Júlia, com o divórcio de ambos.
Segundo o inquérito, embora não haja imagem direta do momento dos disparos, a dinâmica observada sustenta a hipótese de que Antoneudo tenha sido o atirador. O Chevrolet Prisma atribuído a ele teria sido comprado em setembro de 2025. Após os clarões, o veículo deixou o local com pelo menos dois ocupantes e, em seguida, entrou na residência do casal. Às 7h17, Antoneudo foi registrado levando o Prisma a uma oficina, e mais tarde foi visto circulando em um Fiat Pulse vermelho. A defesa dele informou que não comentaria o caso; a defesa de Júlia disse que vai pedir sua liberdade.
Entenda a cronologia reunida pela investigação:
– 10/8, 16h, a 11/8, 2h: Raphael e Júlia trabalham juntos no 16º BPM.
– 11/8, 1h48–1h58: câmeras registram o fim do serviço de ambos.
– 11/8, 2h19: os dois entram no Hyundai I30 de Raphael e deixam o batalhão.
– 11/8, 2h36: I30 passa pela Av. Jornalista Thomaz Coelho rumo ao Terminal da Messejana.
– 11/8, 2h40: chegada à Rua Florêncio Fontenele, onde mora o casal.
– 11/8, 2h41: I30 estaciona sob uma árvore e permanece cerca de 21 minutos.
– 11/8, 3h02: um Chevrolet Prisma branco se posiciona atrás do I30.
– 11/8, 3h06: três clarões são captados; a polícia os associa a disparos.
– 11/8, 3h07: os dois carros deixam a via em direção à BR-116.
– 11/8, 3h22: o Prisma é filmado sozinho a 226 metros do ponto de carbonização, em Itaitinga.
– 11/8, 3h29: uma câmera mostra pelo menos dois ocupantes dentro do Prisma.
– 11/8, 3h32: o Prisma retorna e entra na residência do casal.
– 11/8, 7h17: Antoneudo leva o Prisma a uma oficina; Júlia aparece de vestido rosa.
– 11/8, 7h38: o casal deixa a filha na escola.
– 11/8, 11h03: o Fiat Pulse vermelho é visto em Aquiraz.
– 11/8, 12h01: Júlia é localizada saindo de um matagal em Aquiraz, supostamente amarrada, alegando sequestro.
Júlia foi presa em flagrante na tarde de 11 de agosto, durante depoimento; Antoneudo foi detido no mesmo dia, com documentos falsos e munições. Em 13 de agosto, a Justiça converteu as prisões em preventivas. O casal foi indiciado por homicídio qualificado — por motivo torpe (relacionado a ciúme e a um relacionamento extraconjugal) e por recurso que dificultou a defesa da vítima. O indiciamento significa que a Polícia Civil encontrou elementos para representar contra os suspeitos; o caso segue para o Ministério Público do Ceará, que pode oferecer denúncia. Se a Justiça aceitar a denúncia, eles se tornam réus e vão a julgamento.
Fonte: G1
Source: G1
