Duas novas mulheres procuraram a Polícia Civil para denunciar o ex-chefe da Comissão de Arbitragem da Federação Cearense de Futebol (FCF), Paulo Silvio dos Santos, por assédio sexual. No início de julho, quatro árbitras já haviam registrado boletins de ocorrência por assédio e importunação sexual. O inquérito sobre esse primeiro grupo foi concluído, e o ex-dirigente foi indiciado pelos dois crimes. A defesa nega as acusações.
Uma das novas denunciantes afirmou que a investida ocorreu quando ela trabalhava como recepcionista em uma concessionária de motos, em Fortaleza, onde Paulo ocupava cargo de chefia. A mulher, que terá a identidade preservada, registrou boletim de ocorrência à época, mas o caso foi arquivado. Ela relata que pediu demissão formalmente, citando assédio e tratamento desrespeitoso: “Na época que aconteceu comigo, eu tive coragem de fazer uma carta de demissão alegando que eu tinha sido assediada, que eu tinha passado por tratamento indevidos e desrespeitosos”.
Outra ex-funcionária da mesma empresa registrou boletim de ocorrência nesta semana. No documento, obtido pela TV Verdes Mares, afirmou ter recebido convites insistentes para sair com Paulo e ofertas de vantagens em troca. Após as recusas, diz ter sofrido prejuízos no ambiente de trabalho. Os episódios narrados por ambas teriam ocorrido entre 2014 e 2018.
As novas queixas se somam às denúncias feitas por quatro árbitras. As mulheres relataram o caso à FCF em 10 de julho, e os boletins de ocorrência foram registrados em 14 de julho. Depois que as denúncias chegaram à Polícia Civil, Paulo Silvio tirou licença de 30 dias do cargo na federação, que abriu uma sindicância administrativa para apurar os fatos.
À época em que as denúncias vieram à tona, a defesa de Paulo Silvio divulgou nota na qual afirmou que ele “jamais praticou qualquer conduta de assédio sexual, importunação sexual, violência sexual ou qualquer outro ato ilícito”. Posteriormente, ao ser procurado, ele disse não ter recebido comunicação sobre o indiciamento.
Segundo os relatos das árbitras, os episódios teriam começado em 2018, durante o curso de formação e após o início da carreira delas. Como presidente da Comissão de Arbitragem da FCF, Paulo tinha a prerrogativa de definir as escalas de jogos. Uma das denunciantes acusou tentativa de estupro, mas a Polícia Civil não o indiciou por esse crime. A corporação informou que o inquérito sobre as quatro árbitras foi concluído e encaminhado ao Poder Judiciário.
O indiciamento significa que a Polícia Civil encontrou indícios para apontar o investigado como suspeito. O caso segue para o Ministério Público do Ceará (MPCE), que pode concordar ou não com o indiciamento. Se concordar, apresenta denúncia formal à Justiça. Caso a denúncia seja aceita, o investigado se torna réu e passa a responder a processo.
Em um dos relatos, uma árbitra disse que, no fim de 2022, passou a receber convites para festas ou para ir à casa de Paulo, em horários considerados inoportunos, por volta das 23h, inclusive com pedidos para que terceiros intermediassem contato. Após iniciar um relacionamento, afirma que ele parou de procurá-la e que ela foi “escanteada” nas escalações. Ela deixou a arbitragem em 2025. Outra declarante relatou que, em 2018, após convites para “tomar vinho”, um grupo de seis pessoas, incluindo Paulo, foi a um motel com piscina depois de uma confraternização. No local, ele teria tentado agarrá-la e insistido mesmo diante da recusa, chegando a entrar no banheiro onde ela estava. Ela conseguiu sair e foi para casa. Posteriormente, diz que sua carreira estagnou. Outras duas árbitras também o denunciaram por comportamento semelhante.
Administrativamente, a FCF informou ter aberto uma sindicância conduzida por uma comissão de três integrantes, presidida por uma mulher, sem prazo definido para conclusão. De acordo com apuração, a comissão está na fase de oitiva de testemunhas, e Paulo ainda não foi ouvido. A licença de 30 dias foi comunicada pela FCF em nota publicada em 14 de julho, mesma data dos boletins de ocorrência. O diretor jurídico da federação, Eugênio Vasques, disse que, mesmo com o fim da licença, o investigado não retornará ao cargo enquanto as investigações estiverem em curso. Em nota, a FCF afirmou ter adotado medidas após tomar conhecimento das denúncias. Ao final da sindicância, a comissão poderá recomendar a demissão de Paulo e o envio do caso à Comissão de Ética da CBF, que pode aplicar punições desportivas.
Em nota, a defesa de Paulo Silvio reitera que ele nega veementemente as acusações e sustenta que as declarações divulgadas até o momento são versões unilaterais apresentadas perante a autoridade policial, a serem analisadas no curso da investigação. A defesa diz confiar na condução imparcial do caso, com observância do devido processo legal, contraditório, ampla defesa e presunção de inocência. Por orientação jurídica, ele não comentará individualmente relatos ou pessoas mencionadas, a fim de preservar a lisura da apuração. Afirma ainda que o investigado está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e manifesta preocupação com a divulgação pública de alegações antes de qualquer oitiva ou da conclusão das investigações, pedindo que instituições e veículos de comunicação tratem o caso com responsabilidade e equilíbrio.
Fonte: G1
Source: G1
