No Centro-Sul do Ceará, Icó preserva um dos mais expressivos conjuntos históricos do país: mais de 400 imóveis dos séculos 18 e 19 tombados compõem o Conjunto Arquitetônico e Urbanístico da cidade, o primeiro do estado a receber proteção do Iphan, em 1998. Quase três décadas depois, o município, com cerca de 62 mil habitantes, segue como referência em arquitetura tradicional, somando 288 anos de história desde sua elevação à categoria de cidade, em 4 de maio de 1738.
A formação de Icó está ligada à ocupação de sesmarias ao longo do Rio Jaguaribe, com a instalação de currais de gado e moradias. O aldeamento de Icó de Baixo desapareceu devido a inundações, enquanto o de Cima, o Arraial dos Montes, prosperou e originou a Vila de Icó em 1726. Ponto estratégico no período colonial, a localidade ficava no cruzamento de três vias de comunicação: a Estrada Geral do Jaguaribe (ligando Ceará a Pernambuco), a Estrada das Boiadas (Ceará ao Piauí e à Paraíba) e a Estrada Nova das Boiadas (de Sobral rumo a Pernambuco e Paraíba). A cidade enfrentou crises no fim do século 19, marcadas pela queda da produção algodoeira e pela seca de 1877 a 1879, alternando momentos de instabilidade e desenvolvimento.
Influenciada por portugueses e franceses, Icó abriga arquitetura barroca com traços próprios do Nordeste, além de linhas do neoclássico francês. Segundo o Iphan, o conjunto reúne características luso-brasileiras, coloniais, ecléticas, art déco, neoclássicas e rococó, além de exemplares contemporâneos, todos adaptados ao sertão, com formas simplificadas e uso de materiais locais. No centro, destacam-se fileiras de casas com telhados de mesma altura e inclinação, sobrados e esquadrias alinhadas. Icó figura entre os primeiros municípios brasileiros a instituir legislação urbanística: uma Resolução Provincial de 1850 definiu um novo perímetro urbano. “O plano urbanístico de Icó foi criado através de uma carta régia que designava todo o traçado urbanístico, dos arruamentos, logradouros públicos, das quadras. Isso traz uma riqueza muito grande porque se comunica com o que a Europa trazia de urbanização, e também da ocupação colonial da coroa portuguesa”, explica o arquiteto Márcio Rodrigo Coelho de Carvalho.
Pesquisadores apontam que o traçado inicial da cidade previu três ruas: a da corte ou da elite (de moradia), a de serviço (dos escravizados) e a Larga (do comércio). Com o tempo, a rua do comércio se transformou no Largo do Théberge, maior intervenção arquitetônica do século 20 em Icó e considerado o maior largo da América Latina, com 955 metros de extensão. O espaço, hoje em sua terceira configuração, segue como palco de manifestações culturais, religiosas e profanas, com intensa movimentação noturna, praça de alimentação e outras atividades. Ao redor, estão as igrejas de Nossa Senhora da Expectação e do Senhor do Bonfim, a antiga Casa de Câmara e Cadeia, o Teatro da Ribeira dos Icós, os sobrados do Barão do Crato e do Canela Preta e outras edificações relevantes.
O largo homenageia Pierre François Théberge, ou Pedro Théberge, médico e historiador francês que chegou a Icó em 1848. Sua família, ligada às artes, está associada à construção do primeiro teatro do Ceará: o Teatro da Ribeira dos Icós, também conhecido como Teatro das Ribeiras, inaugurado em 1860. De estilo neoclássico e detalhes paladianos, o espaço recebeu companhias de todo o Brasil e segue emocionando moradores e visitantes.
Muitos imóveis históricos têm uso público. A Casa de Câmara e Cadeia, antigo centro administrativo e judiciário, onde funcionavam a câmara municipal e a cadeia pública, foi cenário do planejamento da Confederação do Equador em 1824 e abrigou a revolucionária Bárbara de Alencar. Hoje, sedia a Secretaria Municipal de Educação. Outro marco é o Palácio da Alforria, símbolo da luta pela liberdade de pessoas escravizadas no município e na região. No local nasceu Antônio Pinto Nogueira Accioly, que governou o Ceará três vezes entre 1896 e 1912. O nome Palácio da Alforria remete à assinatura, em 25 de março de 1883, da carta de libertação dos escravizados icoenses. Atualmente, o prédio é sede da Prefeitura. Na Casa de Cultura Mariinha Graça funcionam a Secretaria Municipal de Cultura e o escritório técnico do Iphan.
A educação patrimonial integra a grade escolar. “As escolas têm rodas de conversas, palestras. Os alunos visitam os patrimônios para aflorar esse sentimento de pertencimento no coração, para que sejam cidadãos protetores do patrimônio histórico”, afirma o secretário municipal de Cultura, Renan Moreira.
Entre os exemplares civis, destaca-se o sobrado do Barão do Crato, pertencente a Bernardo Duarte Brandão, cuja imponência reflete a influência das elites do período imperial. Hoje, além de residência, abriga dois comércios. O Mercado Público, concluído em 1873 e restaurado pela última vez em 1998, permanece em atividade, reunindo comerciantes de produtos variados e preservando seu papel social e cultural, em contraste com o comércio contemporâneo ao redor.
No patrimônio religioso, a Capela de Nossa Senhora da Expectação, erguida quase 30 anos antes da elevação de Icó a cidade, transformou-se em paróquia em 1722. Com traços barrocos, sofreu alterações internas, como a abertura de arcadas laterais, mas conserva o sacrário original em talha, prataria e imagens antigas. Em dezembro, a devoção à santa atrai fiéis de diversas cidades do interior. Outro polo de fé é o Santuário do Senhor do Bonfim, construído pelo primeiro capitão-mor de ordenanças, Bento da Silva Oliveira, como pagamento de um voto pela cura de um familiar. “Apesar do Senhor do Bonfim não ser a igreja matriz da cidade, aqui é o lugar onde as pessoas se achegam mais, têm mais um carinho, uma devoção maior à imagem que veio da Bahia. Ela ficava em um oratório fechado que só abria nas sextas-feiras para o culto público”, relata o pároco de Nossa Senhora da Expectação e reitor do Santuário, Yedo Ian.
Os relatos de fé atravessam gerações e atraem novos moradores. A vendedora Claecy Vieira, natural de Acopiara, mudou-se aos 18 anos em busca de trabalho e, duas décadas depois, celebra o que construiu com o marido e os dois filhos. O radialista Gustavo Veras, que veio de Parnaíba (PI) há 15 anos, diz ter sido acolhido pela religiosidade local: construiu família, conquistou a casa própria e mantém o agradecimento como motivação. A imagem do Senhor do Bonfim sai do altar apenas em 1º de janeiro de cada ano, mas já foi retirada três vezes por motivos distintos. Na primeira, durante uma grande cheia do Rio Salgado, fiéis pediram pela baixa das águas; o padre levou a imagem até o leito do rio e colocou seus pés na água. Segundo o pesquisador Cláudio Pereira da Silva, depois de algum tempo, o rio começou a acalmar e baixar.
Mais de 81% dos moradores de Icó são católicos, de acordo com o IBGE. A fé também se manifesta em outras igrejas históricas, como a de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, conhecida como Igreja do Monte.
A preservação é visível nas ruas: casas e casarões habitados mantêm a integração entre passado e presente. A artesã Vanusa Vitorino da Silva vive há mais de 30 anos em uma casa tombada pelo Iphan, herdada da família do marido e reformada com autorização do órgão. “Os moradores têm a plena consciência dos tombamentos. Eles preservam até por iniciativa própria e mantêm os imóveis pintados, bem apresentados”, reforça o arquiteto Márcio Rodrigo Coelho de Carvalho, destacando o orgulho e o sentimento de pertencimento das famílias. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará.
Fonte: G1
Source: G1
