Traficantes de animais silvestres no Ceará têm migrado das feiras livres para as redes sociais, aproveitando o anonimato e a facilidade de contato com potenciais compradores. Em grupos de Facebook, WhatsApp e Telegram, perfis anônimos publicam fotos e vídeos de macacos, aves e répteis, alguns com preço exposto e outros com indicação de ‘valor no PV’. As transações formam uma espécie de marketplace criminoso que tenta escapar do radar das autoridades.
Imagens obtidas pela reportagem mostram ofertas e pedidos em grupos fechados, onde os interessados procuram espécies específicas. Procuradas, a Meta (responsável por Facebook e WhatsApp) e o Telegram não responderam até a publicação desta matéria.
O Ibama monitora a migração para o ambiente virtual há pelo menos sete anos. Segundo o superintendente Saulo Gouveia, o órgão intensificou investigações e ações de fiscalização e vem se readequando às dinâmicas do crime online em parceria com outras instituições.
A Polícia Civil e o Ministério Público do Ceará (MPCE) também reforçaram o combate. No primeiro semestre de 2026, a Polícia Civil registrou 32 prisões em flagrante por tráfico de animais silvestres, ante 62 no mesmo período de 2025. Houve ainda 91 ocorrências no primeiro semestre de 2026, frente a 109 em 2025, conforme a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).
Em maio de 2026, um homem de 29 anos foi autuado e multado em R$ 60,5 mil por oferecer animais na internet. Monitorado pelo Ibama, ele foi localizado em Cruz, no interior do Ceará. No endereço, 17 aves e 4 tatus foram resgatados. O suspeito não foi preso na ocasião por estar acamado após um acidente de motocicleta.
Em 2025, a 12ª fase da Operação Fauna Livre desarticulou um grupo de WhatsApp que comercializava jaguatiricas, macacos, tucanos, araras, papagaios e diversas espécies de pássaros, entre elas a jandaia, ameaçada de extinção. A ação resultou na prisão de seis pessoas e no resgate de 90 aves mantidas em cativeiro. A rede tinha ramificações em outros estados e refletia a intensificação da migração do comércio ilegal para as plataformas digitais, estratégia que também busca evitar grandes operações presenciais. Em novembro de 2025, uma operação na Feira da Parangaba, em Fortaleza, capturou mais de 30 pessoas e foi a maior do Ibama naquele ano.
Apesar do avanço no ambiente virtual, as feiras livres seguem sendo usadas. Em 9 de agosto, o Batalhão de Polícia do Meio Ambiente (BPMA) apreendeu 205 animais silvestres na Feira da Parangaba e aplicou R$ 329,6 mil em multas. Os agentes encontraram animais com ferimentos, sinais de falta de higiene, alimentação inadequada, restrição de movimento e superlotação. Em outubro de 2025, outra operação no mesmo local resgatou 271 animais em situação de maus-tratos.
Segundo o delegado Wilson Camelo, titular da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA), os criminosos se reinventam e migraram para grupos fechados, com ingresso por convite, além de recorrer à dark web, área da internet não indexada por buscadores. As investigações apontam que o tráfico de fauna está associado a outros crimes, como associação criminosa, maus-tratos, lavagem de dinheiro e falsificação de documentos. Em muitos casos, as multas ultrapassam R$ 1 milhão e os suspeitos tentam ocultar valores usando contas de familiares. O delegado ressalta ainda que o comprador também pode responder por crime ambiental ao manter animal silvestre em cativeiro.
O MPCE, em parceria com a Polícia Civil, conduz desde 2022 a Operação Fauna Livre, que já teve 12 fases no estado. Em 2025, o órgão criou o Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente (Gaema), voltado à atuação preventiva e repressiva em crimes ambientais. Para o promotor Marcus Amorim, as redes sociais impulsionam a ‘petificação’ de animais silvestres, estimulando a demanda por espécies nativas e exóticas e alterando o perfil de interesse do mercado ilegal.
Em outubro de 2025, a Operação Libertas mobilizou Ministérios Públicos, polícias Civil e Militar e órgãos de fiscalização do Ceará, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Alagoas, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Bahia. No Ceará, foram resgatadas 111 aves da fauna silvestre; um automóvel, quatro celulares e oito armas de fogo foram apreendidos. A investigação mirou uma rede liderada por um alvo já preso anteriormente; a extração de mensagens de celular, autorizada pela Justiça, levou a outros envolvidos que atuavam na captura e venda de animais, preferencialmente pela internet.
Os impactos ambientais são expressivos, especialmente na Caatinga, segundo Samuel Portela, coordenador de conservação da Associação Caatinga. A retirada de animais agrava um quadro de perda e fragmentação de habitat, queimadas, desmatamento, caça e mudanças climáticas. Cada indivíduo capturado desequilibra o ecossistema, comprometendo funções essenciais como dispersão de sementes, polinização, controle populacional e manutenção da cadeia alimentar. A prática também favorece a introdução de espécies invasoras, seja por fugas de cativeiros clandestinos, seja por solturas após a desistência de tutores.
Dados do Instituto Ampara Animal, divulgados em 2024, indicam que 37% das buscas por compra de macacos e 18% por cobras e serpentes têm origem em conteúdos do Instagram. A presidente da instituição, Juliana Camargo, alerta que a exposição digital cria a falsa impressão de que manter animais silvestres como pets é algo natural e seguro, o que incentiva a demanda e coloca em risco animais e pessoas. Para conscientizar o público, o instituto lançou a campanha Algoritmo Selvagem (Reset), que propõe reduzir curtidas, compartilhamentos e consumo de publicações que romantizam a posse de fauna silvestre, reforçando que o alcance desses conteúdos depende das escolhas dos usuários.
Fonte: G1
Source: G1
