Cientistas descreveram uma nova espécie de ave endêmica do Ceará, a tovaca-de-baturité (Chamaeza baturitensis), registrada na Serra de Baturité, a cerca de 100 km de Fortaleza. O estudo, assinado por Vagner Cavarzere, Lucas Romero e Enrico Breviglieri, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), foi publicado nesta semana na revista da Sociedade Brasileira de Zoologia.
Vagner Cavarzere, professor do Instituto de Biociências da Unesp em Botucatu (SP) e autor principal, destaca que descrições de novas aves da Mata Atlântica são raras, dado o conhecimento acumulado sobre o bioma. Com a publicação, o nome da espécie passa a constar na literatura, mas a validação taxonômica formal ainda depende de avaliação por outros especialistas e da disponibilidade de um exemplar em coleção científica.
A tovaca-de-baturité ocorre em duas áreas da Serra de Baturité, com presença principal no Parque Estadual do Pico Alto, em Guaramiranga. A infraestrutura do parque favorece a observação da ave, embora persistam desafios para seu estudo em campo. A espécie evita ambientes muito iluminados e costuma deslocar-se caminhando pelo sub-bosque.
Até então, o animal era confundido com a tovaca-campainha (Chamaeza campanisona), mais comum na Região Sul. Pesquisadores notaram diferenças na coloração da testa — marrom na população do Ceará, e não preta — e, sobretudo, no canto. Gravadores foram distribuídos pela floresta para captar vocalizações em horários determinados; os registros confirmaram a ocorrência apenas em dois pontos da Serra de Baturité.
O tamanho populacional ainda é desconhecido, mas a equipe estima que menos de 100 indivíduos vivam na serra. Em área tão restrita, os critérios de tamanho populacional e extensão de ocorrência tendem a indicar um status de ameaça preocupante, segundo Cavarzere. A descoberta abre caminho para pesquisas sobre comportamento, reprodução e pressões sobre o habitat, como caça e desmatamento.
Marco Crozariol, biólogo e curador do Museu de História Natural do Ceará Professor Dias da Rocha, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), informa que a instituição mantém dois exemplares conservados para estudo e avalia expor a espécie ao público. Ele reforça que a ave pode atrair o turismo de observação, com potencial de movimentar hotéis, restaurantes e guias, o que, na avaliação dos pesquisadores, contribui para manter a floresta em pé. Ambientalistas, porém, alertam que um aumento do fluxo turístico pode alterar a dinâmica ambiental já pressionada pela ação humana.
Segundo Crozariol, a Serra de Baturité sofre desmatamento, sobretudo associado à especulação imobiliária, o que restringe ainda mais o habitat da espécie. “São muitas demandas, são muitas espécies ameaçadas aqui na região, e a gente não tem financiamento para estudar essas espécies. Temos pessoal qualificado, treinamento, o conhecimento, mas infelizmente falta recurso”, afirma.
A tovaca-de-baturité se junta a outras espécies endêmicas do estado, como o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), que vive somente na Chapada do Araripe e é classificado como criticamente em perigo de extinção, impactado pela expansão urbana e agropecuária e por incêndios florestais.
Em nota, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) reconheceu a relevância do Parque Estadual do Pico Alto para a sobrevivência de espécies endêmicas e ameaçadas, justificativa técnica para a criação da Unidade de Conservação. A pasta afirma que o parque concentra biodiversidade rica e frágil, incluindo espécies criticamente ameaçadas, conforme a Lista de Fauna Ameaçada do Ceará, e que há ações em andamento e planejadas para conservar e fiscalizar a proteção da Chamaeza baturitensis na Serra de Baturité. Entre os esforços, cita a gestão socioparticipativa com a formação do Conselho Gestor do Parque e a elaboração do Plano de Manejo da unidade.
Fonte: G1
Source: G1
