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  • Dia Mundial da Fotografia: por que os álbuns físicos resistem em plena era digital

    Dia Mundial da Fotografia: por que os álbuns físicos resistem em plena era digital

    No Dia Mundial da Fotografia, celebrado nesta quarta-feira (19), ganham destaque as histórias de quem mantém o hábito de registrar o cotidiano em papel, preservando álbuns e impressões mesmo diante da abundância de imagens digitais e do armazenamento em nuvem.

    A data remete a 19 de agosto de 1839, quando o francês Louis Daguerre apresentou ao mundo o processo que resultou no daguerreótipo, marco considerado o nascimento da fotografia. No século 19, a produção de imagens exigia estúdios, condições específicas e domínio técnico, o que conferia a cada fotografia o status de peça única — a ponto de algumas serem entregues em caixas adornadas com ouro, como explica o historiador David Felício Araújo, técnico em Preservação e Digitalização do Museu da Imagem e do Som do Ceará (MIS-CE).

    A popularização viria em ondas. Internacionalmente, a Kodak simplificou o acesso com o lema que transferia ao laboratório a parte técnica do processo. No Brasil, a criação do Polo Industrial de Manaus, a partir de 1967, barateou câmeras e filmes, ampliando o alcance da fotografia entre diferentes camadas sociais. Em Fortaleza, a rede Aba Film, ativa até o início dos anos 2000, fomentou o hábito de fotografar e montar álbuns, chegando a operar dezenas de lojas nas décadas de 1980 e 1990.

    Com a fotografia digital, o cenário se transformou em excesso de imagens e consumo instantâneo, tendência observável em conteúdos que ficam disponíveis por apenas 24 horas nas redes. Ainda assim, muitas pessoas optam por desacelerar, valorizando rituais analógicos e impressões.

    Entre elas está Inês Ramalho. Quando começou a trabalhar, destinou o segundo salário à compra de uma câmera e, desde então, construiu seu próprio acervo. Natural de Quixadá (CE), lembra que, nas décadas de 1950 e 1960, as fotos eram raras e, às vezes, vistas em monóculos — pequenos cones com lente de aumento. Naquele período, fotógrafos costumavam atuar sobretudo em escolas. Hoje, aos 70 anos, aposentada do comércio em Fortaleza e ativa em grupos de literatura, viagens e projetos culturais, ela segue fotografando com o celular, imprime as melhores imagens em laboratório, plastifica algumas e reúne tudo em álbuns, porta-retratos e painéis. Entre os registros estão viagens aos Estados Unidos para visitar a filha e a neta, participações em grupos de teatro e encontros com escritores. As fotos também a ajudam a revisitar memórias de amigos e familiares que já partiram.

    A funcionária pública Christiane Myrta, 57, viu a transição de uma infância em que as imagens dependiam de fotógrafos profissionais para a adolescência em que as famílias passaram a adquirir câmeras. O filho mais velho nasceu nos anos 1990, quando ela ainda fotografava de forma analógica. Mesmo com a nuvem e o celular, mantém o hábito de organizar álbuns de família e de eventos, recorrendo a plataformas que permitem diagramar os livros e solicitar impressão com entrega em casa. Em sua rotina, folhear álbuns é parte de uma narrativa afetiva compartilhada com os filhos.

    A servidora pública Ana Paula Alcântara, 55, amiga de Christiane, também vê nos álbuns um patrimônio afetivo. Com poucos registros da própria infância, apaixonou-se pela fotografia ao ganhar de uma prima, trazida da Europa, sua primeira câmera analógica. Passou a usar filmes de 36 poses e a registrar eventos de família, viagens e trilhas off-road. Migrou depois para a câmera digital e, mais tarde, para o celular, sem abrir mão de compilar álbuns de batizados, formaturas, aniversários e casamentos — para o acervo pessoal e para presentear parentes e amigos. Costuma reunir também fotos feitas por outras pessoas e compartilhadas nas redes.

    O cientista de dados Madson Dias, 36, transformou a fotografia em hobby. Ao sair de Cedro, no interior do Ceará, para morar em Fortaleza, começou a registrar a vida adulta com o celular e, aos poucos, incorporou equipamentos analógicos, incluindo uma câmera compacta do tipo saboneteira que pertenceu à mãe. Hoje, reúne quatro câmeras analógicas e três digitais. Além de digitalizar revelações quando necessário, imprime as preferidas e guarda um álbum com fotos instantâneas do casamento. Para ele, a prática ajuda a desacelerar em meio aos estímulos constantes e a recuperar rituais que reforçam a relação com as mídias analógicas, lembrando que a maior parte das experiências acontece no mundo físico.

    A arquiteta Lara Carioca, 24, é outra entusiasta. Com passagens por formações na Casa Amarela Eusélio Oliveira (UFC) e participação em um grupo de estudos no Museu da Fotografia Fortaleza, ela ganhou uma câmera digital aos 15 anos e, dois anos depois, uma analógica. Desde então, constrói uma coleção com equipamentos usados, que também circulam entre amigos. Profissionalmente, trabalha com fotografia digital aplicada à arquitetura; fora do expediente, opta pelo analógico, registrando praias, viagens e marcos pessoais. Costuma carregar uma câmera e, fotografando quase toda semana, leva cerca de um mês para concluir um filme. Após o envio ao laboratório, a revelação e a digitalização levam, em média, 20 dias para serem entregues.

    No MIS-CE, David Felício atua na preservação de um acervo em diversos suportes — películas cinematográficas, fitas de vídeo, fotografias em papel e arquivos digitais. Ele ressalta que nenhuma forma de armazenamento é totalmente segura: impressos podem rasgar ou se desgastar; discos rígidos podem ser corrompidos, perdidos ou danificados pela umidade; e serviços de nuvem não garantem permanência. Por isso, recomenda combinar estratégias e, quando possível, manter as películas com negativos, que permitem gerar novas cópias no futuro.

    Fonte: G1 Globo

    Source: G1 Globo