A cidade de Quixadá, no sertão central do Ceará, foi cenário do filme cearense “Feito Pipa”, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027. O município tem atraído produções cinematográficas nos últimos anos e é conhecido pelos monólitos, como a Pedra da Galinha Choca; pelos relatos de avistamentos de objetos voadores não identificados (óvnis); e pela fazenda Não Me Deixes, que pertenceu à escritora Rachel de Queiroz.
“Feito Pipa” conta a história de Gugu, um garoto de 11 anos apaixonado por futebol e criado pela avó, Dilma, uma professora aposentada que lhe oferece liberdade e afeto. Quando a saúde dela piora em razão do mal de Alzheimer, o menino precisa lidar com a possibilidade de morar com o pai, Batista, com quem mantém uma relação distante.
O ator baiano Yuri Gomes interpreta Gugu. Teca Pereira vive Dilma, e Lázaro Ramos interpreta Batista. O roteiro é de André Araújo, e a direção, de Allan Deberton. Os dois são cearenses nascidos em Russas, no interior do estado.
A história tem como pano de fundo o município de Quixadá, que possui quase 90 mil habitantes e fica a cerca de 170 quilômetros de Fortaleza. “Feito Pipa” foi gravado nas zonas rural e urbana da cidade, em localidades como Tapuiará, Califórnia e Dom Maurício.
O território de Quixadá é marcado por pequenos e grandes monólitos, estruturas geológicas formadas por uma única e maciça pedra ou rocha. Algumas formações têm dimensões semelhantes às de uma serra, enquanto outras podem ser escaladas sem equipamentos. Em torno desses monólitos surgiram muitos relatos de avistamentos de óvnis.
O mais conhecido é a Pedra da Galinha Choca, assim chamada por sua semelhança com o formato da ave. A formação fica nas proximidades do Açude do Cedro, outro ponto de atração da cidade. O reservatório é considerado o primeiro grande açude do Brasil: foi idealizado durante o reinado de Pedro II e concluído em 1906, quando a República ainda não tinha 20 anos.
Um dos monólitos abriga a sede do Memorial Rachel de Queiroz. O prédio, conhecido como Chalé da Pedra, foi construído em 1920 sobre uma rocha localizada no meio de uma praça.
O conjunto rochoso é conhecido como Monumento Natural dos Monólitos de Quixadá e, desde 2002, é uma unidade de conservação ambiental do Ceará. Com uma paisagem singular, o município também oferece atividades relacionadas a esportes de aventura e trilhas na natureza.
Embora o filme tenha sido gravado em locais mais afastados dos pontos turísticos mais conhecidos, a paisagem de Quixadá aparece marcada por açudes, monólitos e vegetação típica da caatinga. Durante o período chuvoso, a vegetação fica verde; na estação seca, as plantas perdem as folhas e assumem uma aparência acinzentada, entrando em uma espécie de “hibernação”.
Além das paisagens naturais, Quixadá abriga o campus de tecnologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e funciona como polo educacional da região, atraindo estudantes de municípios vizinhos do sertão central.
Nos últimos anos, a cidade recebeu equipes de filmagem com frequência. Entre as produções gravadas no município estão “Shaolin do Sertão” e “Bem-vindo a Quixeramobim”, de Halder Gomes; “Mais pesado é o céu”, de Petrus Cariry; e a produção norte-americana “Área Q”, de Gerson Sanginitto.
A cerca de 30 minutos da sede de Quixadá, a fazenda Não Me Deixes preserva a memória de Rachel de Queiroz, primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. O local era o recanto preferido da escritora e mantém espaços que ajudam a contar sua trajetória, como a biblioteca, o alpendre, a sala de estar e a cozinha. Foi ali que ela escreveu diversos textos.
Mesmo morando no Rio de Janeiro, Rachel visitava anualmente a propriedade. Em maio de 1960, ela afirmou ter visto no céu um objeto voador não identificado cercado por um “halo luminoso e nevoento”. Segundo seu relato, a luz alaranjada variava de intensidade, velocidade e aparência, enquanto o objeto se deslocava horizontalmente.
O relato da escritora é um dos primeiros registros documentados de uma série de avistamentos que tornou a região conhecida. O livro “Casos ufológicos em Quixadá”, lançado em 2022, reúne relatos de pelo menos 240 famílias do município.
Atualmente, Quixadá é considerada por ufólogos uma área com frequentes relatos de avistamentos de óvnis. A fama da região também inspirou o roteiro do filme “Área Q”, de 2012, que aborda a ufologia.
“Feito Pipa” teve sua estreia mundial na Berlinale, o Festival de Cinema de Berlim, em fevereiro deste ano, e conquistou o Grande Prêmio do Júri Internacional, tornando-se um dos destaques do festival alemão.
O longa-metragem recebeu cinco prêmios no Festival de Gramado, um dos mais tradicionais do Brasil, incluindo os de Melhor Atriz, para Teca Pereira, e Melhor Ator Coadjuvante, para Lázaro Ramos. A produção também venceu o prêmio do Júri Popular, sendo escolhida pelo público como o filme favorito do evento.
O roteiro de “Feito Pipa” foi desenvolvido durante o Laboratório de Cinema da Escola Porto Iracema das Artes, em Fortaleza. A cada ano, o laboratório seleciona seis projetos. Durante sete meses, os roteiristas recebem apoio financeiro e criativo, além de mentorias com profissionais em atividade, para aprimorar os textos.
Na corrida pelo Oscar, o longa cearense inicialmente integrou uma lista de 15 filmes inscritos e habilitados para representar o Brasil. Depois, seis produções foram pré-selecionadas, e “Feito Pipa” foi escolhido.
A candidatura do filme brasileiro será submetida à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e disputará com produções de outros países uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional. A escolha feita pelo Brasil não garante a indicação ao Oscar. Caso seja selecionado, o longa concorrerá na cerimônia de 2027, marcada para 14 de março.
Fonte: G1
Source: G1
