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  • 92 anos da morte de Padre Cícero: as últimas palavras, o velório com dois caixões e a romaria que move Juazeiro do Norte

    92 anos da morte de Padre Cícero: as últimas palavras, o velório com dois caixões e a romaria que move Juazeiro do Norte

    Há 92 anos, em 20 de julho de 1934, Cícero Romão Batista, o Padre Cícero, morreu aos 90 anos em Juazeiro do Norte (CE). Seus últimos dias foram vividos em recolhimento no Casarão da Rua São José, já com visão muito comprometida — cego de um olho e enxergando pouco do outro — mesmo após uma cirurgia de catarata que, segundo relatos, exigiu que ele contraísse empréstimo. Fundador da cidade em 1911, ele a governou em dois períodos: de 1911 a 1912 e de 1914 a 1927.
    Testemunhas próximas acompanharam a fase final, entre elas as beatas que moravam com ele, como Joana Tertulina de Jesus (a Beata Mocinha), e afilhados, como as professoras Generosa Alencar e Amália Xavier. Esses relatos alimentaram biografias com detalhes sobre o sofrimento com doenças, as derradeiras palavras e a necessidade de dois caixões no velório. Um documento antigo da Igreja Católica registra a causa da morte como problemas intestinais (“faleceu de intestino”), e biografias indicam distúrbios digestivos como motivo principal. O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello afirma que a saúde dele piorou após a cirurgia de catarata malsucedida em meados de 1934.
    A madrugada de 20 de julho foi de vigília no casarão, com fiéis rezando o terço dentro e fora da residência. Deitado, o sacerdote teria balbuciado as últimas frases, conforme registrou Lira Neto em “Padre Cícero: poder, fé e guerra no Sertão”: “No Céu, eu rogarei a Deus por todos vocês…” e, em voz quase imperceptível, “meu pai, meu pai, meu pai…” — esta segunda, ouvida apenas pela afilhada Amália Xavier de Oliveira, que se aproximou do leito.
    Estima-se que o velório tenha durado 30 horas, utilizado dois caixões e reunido cerca de 60 mil pessoas no cortejo. Em 2024, durante as homenagens pelos 90 anos da morte, o pesquisador Renato Casimiro relatou curiosidades do adeus, uma delas registrada em fotografias históricas: o farmacêutico José Geraldo da Cruz — que mais tarde se tornaria prefeito de Juazeiro do Norte — organizou a exibição do caixão em um dos grandes janelões do casarão para permitir que quem estava na rua visse o corpo, o que causou forte comoção. Em meio ao manuseio, o braço direito do padre caiu, produzindo um movimento sem vida que levou alguém a gritar: “O Padim Ciço ressuscitou”.
    Após o sepultamento no altar da Capela do Socorro, ao lado do cemitério mais antigo da cidade, o Dia de Finados transformou-se em grande romaria em Juazeiro do Norte, com milhões de pessoas passando a visitar o túmulo. Além da lápide — onde católicos costumam tocar objetos para que se tornem bentos —, a memória do santo popular segue presente em diversos espaços. Oficialmente reconhecido pela Igreja Católica como “servo de Deus”, Padre Cícero tem processo de beatificação em análise no Vaticano. Neste período de homenagens pelos 92 anos da morte, romeiros voltam a chegar à cidade.
    O Casarão da Rua São José, no centro, tem oito janelas na fachada; uma delas era a preferida do sacerdote para conversar com devotos. Proibido de celebrar missas, ele transformou a janela em púlpito. Historiadores relatam que falava baixo, exigindo silêncio e atenção dos fiéis, e que frequentemente chamava os romeiros de “amiguinho”. A casa, administrada pela Ordem dos Salesianos, abriga objetos pessoais — inclusive animais empalhados recebidos como presentes — e funciona de segunda a sexta, das 7h30 às 12h e das 14h às 17h, e aos sábados, das 7h30 às 12h, com entrada gratuita.
    Fundado em 1988, o Memorial Padre Cícero, no bairro do Socorro, tem arquitetura de influência brutalista e reúne acervo com destaque para a biblioteca particular do sacerdote. O espaço, administrado por fundação homônima, passou por reformas e foi reinaugurado recentemente, em março. O funcionamento é de segunda a sexta, das 8h às 12h e das 13h às 17h, com entrada gratuita.
    No ponto mais alto da cidade, o Casarão do Horto servia como refúgio de descanso para Padre Cícero, longe do movimento do centro. Transformado em museu, destaca esculturas em tamanho real, como a do sacerdote sentado à mesa, e tem paredes e corredores cobertos por ex-votos — de fotografias a vestidos de noiva —, lembranças de graças atribuídas à sua intercessão. Administrado pelos Salesianos, abre diariamente das 7h às 17h, com acesso gratuito.

    Fonte: G1 Globo

    Source: G1 Globo