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  • Estudo no Ceará associa consumo de cuscuz por lactantes a maior ganho de peso dos bebês; efeito pode ser calórico

    Estudo no Ceará associa consumo de cuscuz por lactantes a maior ganho de peso dos bebês; efeito pode ser calórico

    Um saber popular virou objeto de investigação científica: o consumo de cuscuz na fase de amamentação poderia aumentar a produção de leite materno? Reconhecido pela Unesco como patrimônio imaterial da humanidade e amplamente consumido no Nordeste, o cuscuz foi o foco de um estudo realizado em Sobral (CE) que analisou o ganho de peso de bebês como indicador indireto.

    Em um ensaio clínico randomizado da Universidade Federal do Ceará (UFC) com 30 mulheres em amamentação exclusiva, a ingestão de cuscuz pelas mães foi associada a um ganho de peso 37% maior nos bebês: cerca de 33 gramas por dia (1.011 gramas ao mês) durante o período de suplementação, frente a 24 gramas por dia (738 gramas ao mês) quando não havia consumo do alimento. Além disso, 60% das mães relataram aumento acentuado da produção de leite e 30% relataram aumento moderado enquanto consumiam o suplemento.

    Os autores levantam a hipótese de que o efeito observado esteja ligado ao maior aporte energético materno, e não necessariamente a uma propriedade específica do cuscuz. No experimento, a porção suplementar oferecida às lactantes correspondeu a cerca de 50% da demanda extra de energia nesse período, o que pode ajudar no equilíbrio energético das mães. A estratégia, segundo os pesquisadores, pode apoiar a amamentação especialmente em contextos de poucos recursos, e pode ser incorporada por equipes da Estratégia Saúde da Família, reforçando a alimentação adequada e a valorização de alimentos regionais.

    O trabalho foi conduzido pela enfermeira Dyanna Linhares no Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família do Campus Sobral, em colaboração com pesquisadores da Faculdade de Medicina da UFC e da Fundação Oswaldo Cruz. Publicado em fevereiro no Journal of Tropical Pediatrics, da Oxford University Press, o estudo foi desenvolvido em um cenário real da atenção primária.

    Durante a coleta de dados, realizada no mestrado, a pesquisadora pesava os bebês com a mesma balança nas casas das voluntárias, inclusive em áreas mais distantes, como os distritos de Jordão (região serrana) e Patos, em Sobral. Participaram mulheres de 18 a 40 anos, com bebês a termo, saudáveis, de 1 a 4 meses, todos em amamentação exclusiva. As voluntárias receberam uma cuscuzeira e saquinhos com as porções diárias de cuscuz. Entre os critérios de exclusão estavam: crianças com outras fontes de nutrição além do leite materno, alergia a milho ou alimentos semelhantes e condições congênitas capazes de afetar o crescimento.

    Os pesquisadores salientam as limitações: amostra pequena e acompanhamento por curto período; ausência de medição direta da produção de leite (o ganho de peso infantil foi usado como indicador indireto); falta de monitoramento integral da dieta materna, o que pode ter influenciado o aporte calórico; e possível viés nos relatos das mães. Mesmo assim, os autores destacam o valor de testar uma intervenção simples e acessível no contexto da atenção primária.

    Culturalmente marcante, versátil e acessível, o cuscuz no Brasil é preparado com farinha de milho, água e um pouco de sal, podendo ser combinado com alimentos como queijo e ovo. Segundo o professor Plácido Arcanjo, que orientou o estudo, relatos clínicos sobre aumento de leite com o consumo de cuscuz motivaram a avaliação objetiva do ganho de peso dos bebês. Para Dyanna Linhares, os achados aproximam o conhecimento empírico da evidência científica em saúde da família.

    O g1 Ceará mantém um canal no WhatsApp, citado na publicação original. A reportagem também faz referência a vídeos mais vistos do Ceará.

    Fonte: G1

    Source: G1