{"id":1973,"date":"2026-07-03T07:01:35","date_gmt":"2026-07-03T07:01:35","guid":{"rendered":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/2026\/07\/03\/por-que-nordeste-e-a-regiao-do-brasil-com-mais-risco-de-terremoto\/"},"modified":"2026-07-03T07:01:35","modified_gmt":"2026-07-03T07:01:35","slug":"por-que-nordeste-e-a-regiao-do-brasil-com-mais-risco-de-terremoto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/2026\/07\/03\/por-que-nordeste-e-a-regiao-do-brasil-com-mais-risco-de-terremoto\/","title":{"rendered":"Por que Nordeste \u00e9 a regi\u00e3o do Brasil com mais risco de terremoto"},"content":{"rendered":"<p>Maior falha geol\u00f3gica do Brasil \u00e9 a de Samambaia, no Rio Grande do Norte \u2014 Foto: Getty Images<\/p>\n<p>H\u00e1 um certo al\u00edvio no Brasil com a ideia de que o pa\u00eds est\u00e1 protegido de terremotos, por estar localizado no centro de uma placa tect\u00f4nica, quando estes fen\u00f4menos acontecem com mais frequ\u00eancia em \u00e1reas de encontros de placas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma regi\u00e3o brasileira mais propensa aos abalos s\u00edsmicos do que as demais: o Nordeste. Isso acontece devido a uma particularidade da crosta terrestre sob boa parte dos Estados nordestinos.<\/p>\n<p>\u2705 Clique e siga o canal do g1 Cear\u00e1 no WhatsApp<\/p>\n<p>Para explicar por que a espessura da crosta \u00e9 mais fina na chamada Prov\u00edncia Borborema, nome do bloco rochoso que forma parte significativa do Nordeste brasileiro, especialistas se valem de uma met\u00e1fora: \u00e9 como um queijo derretido que, puxado, vai ficando mais fininho, mais ralo no meio.<\/p>\n<p>Sob o Cear\u00e1, Rio Grande do Norte, Para\u00edba, Pernambuco e Alagoas, a crosta terrestre tem de 30 a 35 quil\u00f4metros de espessura \u2014 em alguns pontos, at\u00e9 menos do que isso. \u00c9 mais fina do que a m\u00e9dia mundial, que passa dos 40 quil\u00f4metros, chegando a 70 quil\u00f4metros na regi\u00e3o do Himalaia. Na regi\u00e3o dos oceanos, s\u00e3o cerca de 10 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Acredita-se que isso tenha origem no per\u00edodo Cret\u00e1ceo, entre 136 milh\u00f5es e 65 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. Como os blocos que formam os continentes est\u00e3o em movimento sobre o manto (camada da Terra localizada entre a crosta e o n\u00facleo), o que conhecemos como hoje como a \u00c1frica e a Am\u00e9rica do Sul se separaram naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Exatamente nessa regi\u00e3o onde hoje est\u00e1 o Nordeste, a crosta teria se esticado um pouco mais do que o restante, em um processo de acomoda\u00e7\u00e3o das placas.<\/p>\n<p>O resultado foi esse adelga\u00e7amento at\u00edpico. &#8220;\u00c9 o chamado efeito de estiramento&#8221;, explica o engenheiro de estruturas Marcelo Bianco, professor na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) \u2014 ele chegou a estudar a crosta da regi\u00e3o em pesquisas que realizou na Universidade de Weimar, na Alemanha, onde realizou seu mestrado e doutorado.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 uma regi\u00e3o que sofreu o processo de estiramento com a abertura do [Oceano] Atl\u00e2ntico [na forma\u00e7\u00e3o dos continentes]&#8221;, diz o geof\u00edsico Aderson Farias do Nascimento, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). &#8220;Em regi\u00f5es assim, muitas vezes h\u00e1 o ac\u00famulo, com facilidade, de for\u00e7as que podem desencadear terremotos.&#8221;<\/p>\n<p>Pesquisadores costumam fazer uma analogia com uma casca de ovo trincada, um casco de tartaruga ou mesmo com uma bola de futebol e seus gomos na hora de explicar que o planeta est\u00e1 cheio de placas tect\u00f4nicas coladas umas \u00e0s outras.<\/p>\n<p>Mas talvez seja melhor imaginar essas placas como um grupo de pessoas amontoadas em um vag\u00e3o de transporte p\u00fablico \u2014 quando uma se movimenta, a outra precisa mudar de posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, a tens\u00e3o \u00e9 constante e comumente ocorrem toques que, mesmo involunt\u00e1rios, incomodam.<\/p>\n<p>Essas tens\u00f5es entre os materiais, essa fric\u00e7\u00e3o resultante de um processo antiqu\u00edssimo e constante de acomoda\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que muitas vezes causa terremotos, pela energia que vai se acumulando e, uma hora, se dispersa.<\/p>\n<p>As tens\u00f5es s\u00e3o maiores nas bordas das grandes placas tect\u00f4nicas, onde esses imensos volumes de rocha se encontram e buscam acomodar suas fronteiras. A Terra tem mais de 50 dessas placas \u2014 sendo que as maiores, s\u00e3o 14.<\/p>\n<p>Terremoto de grandes propor\u00e7\u00f5es que atingiu a Venezuela teve origem no encontro entre as placas tect\u00f4nicas Sul-Americana e Caribenha \u2014 Foto: Getty Images<\/p>\n<p>O terremoto de grandes propor\u00e7\u00f5es que atingiu a Venezuela dias atr\u00e1s teve origem nesse encontro entre a placa Sul-Americana e a Caribenha, mas a regi\u00e3o andina tamb\u00e9m est\u00e1 suscet\u00edvel a tremores pelo encontro com a placa de Nazca.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Brasil \u00e9 privilegiado. Seu territ\u00f3rio \u00e9 relativamente protegido, localizado todo dentro da placa Sul-Americana. Contudo, Nascimento explica que a forma\u00e7\u00e3o do terreno do Nordeste, com rochas muito antigas, favorece a percep\u00e7\u00e3o de tremores. &#8220;Funciona como um excelente meio para as ondas s\u00edsmicas viajarem&#8221;, afirma. &#8220;H\u00e1 uma efici\u00eancia muito boa em transmiss\u00e3o da energia s\u00edsmica.&#8221;<\/p>\n<p>Autor do livro Planeta Hostil, o ge\u00f3logo Marco Moraes explica que as tens\u00f5es que chegam ao centro da placa Sul-Americana v\u00eam de todos os lados. A leste, pela for\u00e7a provocada pela dorsal meso-oce\u00e2nica, a cordilheira submarina formada pelo afastamento das placas tect\u00f4nicas que fica no Atl\u00e2ntico. &#8220;\u00c9 um componente de compress\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Do outro lado, a for\u00e7a vem dos Andes. &#8220;Na regi\u00e3o do Pac\u00edfico, a placa [Sul-Americana] \u00e9 empurrada pela placa de Nazca&#8221;, diz o ge\u00f3logo. &#8220;A tens\u00e3o \u00e9 dispersa em grandes \u00e1reas, mas de tempos em tempos ocorrem acomoda\u00e7\u00f5es em falhas.&#8221;<\/p>\n<p>Infogr\u00e1fico \u2014 Foto: BBC<\/p>\n<p>De acordo com o mapa feito pela organiza\u00e7\u00e3o internacional cient\u00edfica Global Seismic Hazard Assessment Program (GSHAP), entidade criada em 1992, enquanto a maior parte do territ\u00f3rio brasileiro n\u00e3o apresenta riscos de sismos, a &#8220;esquina&#8221; nordeste do pa\u00eds \u00e9 classificada como de risco moderado para alto. A entidade considera como risco se h\u00e1 probabilidade de pelo menos 10% de tremores a cada 50 anos, considerando um hist\u00f3rico de ocorr\u00eancias dos \u00faltimos 475 anos.<\/p>\n<p>O que acontece \u00e9 que se a maior parte do Brasil est\u00e1 sobre pontos est\u00e1veis da crosta, ali na Prov\u00edncia Borborema, a quantidade de falhas geol\u00f3gicas \u00e9 grande. A maior dessas falhas \u00e9 a Samambaia, no Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>H\u00e1 40 anos, em novembro de 1986, o munic\u00edpio de Jo\u00e3o C\u00e2mara, a 82 quil\u00f4metros de Natal, registrou um abalo s\u00edsmico assustador. Com magnitude de 5,1 pontos, o tremor causou p\u00e2nico na cidade, segundo reportagens publicadas na \u00e9poca. &#8220;Foi um terremoto fraco, mas o suficiente para derrubar casas pequenas&#8221;, pontua Bianco.<\/p>\n<p>Capa do Jornal O Poti, no Rio Grande do Norte, no dia ap\u00f3s o tremor registrado em Jo\u00e3o C\u00e2mara \u2014 Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Cerca de 4 mil casas foram destru\u00eddas ou parcialmente danificadas, 10 mil pessoas ficaram desabrigadas e muita gente simplesmente resolveu fugir da cidade, conforme relatos da imprensa.<\/p>\n<p>A espessura da crosta na regi\u00e3o \u00e9 um dos fatores que favorece a forma\u00e7\u00e3o de falhas geol\u00f3gicas, ainda que n\u00e3o seja uma \u00e1rea na borda de placa tect\u00f4nica.<\/p>\n<p>&#8220;Em raz\u00e3o do estiramento, temos umas regi\u00f5es mais fr\u00e1geis do que outras aqui no Nordeste. H\u00e1 falhas e fraturas, condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis de deslocamentos&#8221;, pontua Nascimento.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Essa atividade s\u00edsmica da regi\u00e3o ocorre porque o material da crosta dali tem, na hist\u00f3ria geol\u00f3gica, um ac\u00famulo de falhas j\u00e1 em sua forma\u00e7\u00e3o \u2014 o jogo de empurra-empurra entre as placas, que ocorre desde a forma\u00e7\u00e3o do planeta, deixa alguns pontos menos assentados.<\/p>\n<p>No caso do sismo de Jo\u00e3o C\u00e2mara, acredita-se que a falha respons\u00e1vel j\u00e1 existisse h\u00e1 milh\u00f5es de anos. Mas estava &#8220;quietinha&#8221;. Com as tens\u00f5es absorvidas pela Placa Sul-Americana, em dado momento estourou ali. Tecnicamente, a falha foi reativada.<\/p>\n<p>Na imagem, a linha vermelha representa a Falha de Samambaia \u2014 Foto: LabSis UFRN<\/p>\n<p>As falhas geol\u00f3gicas s\u00e3o como fraturas da crosta, causadas pelos deslocamentos dos imensos blocos rochosos. Essas falhas podem ocorrer quando um bloco &#8220;desce&#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao outro, quando &#8220;sobe&#8221; em rela\u00e7\u00e3o ao outro ou quando ambos deslizam, friccionando-se.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno \u00e9 muito mais comum nas bordas das placas. Mas, no interior delas, como \u00e9 o caso na Borborema, podem ser resultantes de fraquezas j\u00e1 existentes \u2014 como se fossem v\u00e3os n\u00e3o preenchidos que se rearranjam por eros\u00e3o, sedimenta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo atividade magm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia de Estudos Tect\u00f4nicos entre o final de 2009 e meados da d\u00e9cada passada, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), esmiu\u00e7ou a geologia da Borborema. O geof\u00edsico Aderson Farias do Nascimento foi um dos que participaram da pesquisa.<\/p>\n<p>Foi esse trabalho que concluiu que a espessura da crosta no Nordeste \u00e9 mais fina. Para tanto, os pesquisadores provocaram uma s\u00e9rie de explos\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0 superf\u00edcie e, com sism\u00f3grafos, mediram como as ondas de choque se propagavam no interior da Terra.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 feito porque as ondas s\u00e3o refletidas e refratadas, mudando de velocidade, conforme as diferen\u00e7as f\u00edsicas entre os materiais que formam a crosta \u2014 afinal, elementos diferentes t\u00eam densidades e consist\u00eancias diferentes e isto \u00e9 especialmente relevante entre a crosta e o manto.<\/p>\n<p>Distantes 50 quil\u00f4metros um do outro, dezenas de po\u00e7os de 45 metros de profundidade e 25 cent\u00edmetros de di\u00e2metro foram feitos na regi\u00e3o. Dentro deles, explosivos em gel foram instalados. Detonados os explosivos, os cientistas mediram a propaga\u00e7\u00e3o das ondas com os sism\u00f3grafos distribu\u00eddos a cada 2 quil\u00f4metros. Depois, com os n\u00fameros em m\u00e3os, efetuaram os c\u00e1lculos.<\/p>\n<p>Os pesquisadores confirmaram n\u00e3o s\u00f3 a espessura delgada da crosta da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m a diversidade de materiais rochosos de sua composi\u00e7\u00e3o, um outro componente que pode explicar o grande n\u00famero de falhas, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 uma homogeneidade que facilite a acomoda\u00e7\u00e3o dos materiais.<\/p>\n<p>&#8220;A Prov\u00edncia de Borborema \u00e9 muito heterog\u00eanea do ponto de vista geol\u00f3gico. S\u00e3o terrenos diferentes, muita rocha metam\u00f3rfica, muitas falhas antigas\u2026 \u00c9 diferente de outras regi\u00f5es que s\u00e3o mais est\u00e1veis&#8221;, afirma o ge\u00f3logo Marco Moraes.<\/p>\n<p class=\"yoapyne-source\">Source: G1 Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maior falha geol\u00f3gica do Brasil \u00e9 a de Samambaia, no Rio Grande do Norte \u2014 Foto: Getty Images H\u00e1 um certo al\u00edvio no Brasil com a ideia de que o pa\u00eds est\u00e1 protegido de terremotos, por estar localizado no centro de uma placa tect\u00f4nica, quando estes fen\u00f4menos acontecem com mais frequ\u00eancia em \u00e1reas de encontros [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1974,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1973","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1973","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1973"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1973\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1974"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1973"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1973"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wp.yoapy.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1973"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}