Assíria Macêdo, 29 anos, do Ceará, relatou nas redes sociais, em 12 de abril, que perdeu duas casas, se separou do marido e acumulou cerca de R$ 50 mil em dívidas após desenvolver vício em apostas online, como o chamado “Jogo do Tigrinho”. Em entrevista, contou que um agiota foi à sua casa e levou a televisão para abater parte do débito.
Segundo Assíria, as apostas começaram há cerca de quatro anos e se tornaram incontroláveis. Para sustentar o hábito, ela usava o dinheiro do trabalho como extensionista de cílios e recorria a empréstimos em bancos e com agiotas. Nos últimos meses, sem conseguir arcar com contas e juros, passou a receber ameaças.
Por causa das ameaças, ela deixou de divulgar o endereço do local onde atendia como extensionista e interrompeu o trabalho. Desde 10 de abril, por questões de saúde, também está sem acesso ao próprio celular, que usava para agendar clientes.
Os pais, idosos, venderam dois imóveis e um veículo para ajudar a pagar as dívidas. A família agora mora de aluguel, pago pelo pai da filha mais nova de Assíria. O relacionamento terminou em meio à crise causada pelo vício, e ela precisou vender até os móveis da casa. Atualmente, a renda vem de ajuda de amigos e da venda de açaí em uma praça — a bebida é preparada por ela, e os pais fazem a comercialização. Ela também busca emprego para quitar o que deve.
Após a repercussão do caso, Assíria conseguiu acompanhamento psicológico gratuito e tenta reunir o valor necessário para zerar as dívidas. Mesmo depois da venda das casas, do carro e dos móveis, ainda restam cerca de R$ 50 mil em débitos. Amigos iniciaram uma campanha de financiamento online para arrecadar recursos.
Em entrevista, Assíria afirmou que começou a apostar por volta de 2022, quando conheceu plataformas de jogos por meio de uma pessoa do trabalho que as divulgava. No início, investia pouco, mas passou a fazer apostas mais altas. Ela chegou a ter ganhos de R$ 10 mil a R$ 15 mil, porém também acumulou grandes perdas.
Com o avanço das dívidas, o então companheiro vendeu uma motocicleta e utilizou a reserva financeira para ajudar a pagar contas. O vício persistiu e o ciclo se repetiu. Quando os pais souberam da real dimensão do problema, os valores já estavam além do que a família podia cobrir, mas, ainda assim, venderam os imóveis e o carro para tentar conter a situação.
Amigos inicialmente duvidaram da gravidade, até que perceberam o tamanho das dívidas e a extensão do que já havia sido vendido. Desde então, passaram a colaborar com doações e mobilizações para levantar dinheiro.
Nas últimas semanas, ela permaneceu longe das redes sociais. Amigos limitaram o acesso ao celular e sugeriram que gravasse um desabafo para explicar o que estava acontecendo e pedir ajuda. “No dia que eu postei o vídeo, eu estava recebendo ameaças, recebendo pressão”, disse. O vídeo de 11 minutos superou 300 mil visualizações e recebeu milhares de comentários. No relato, ela detalhou a perda das casas e a dívida de R$ 50 mil por causa dos jogos.
Expor a própria vulnerabilidade foi difícil, relatou Assíria. Depois da publicação, diversas pessoas em situação semelhante entraram em contato pelo seu perfil, compartilhando perdas — de bens a relatos de familiares sobre casos de suicídio ligados às dívidas. Como segue sem acesso direto às redes, ela toma conhecimento desses relatos por meio dos amigos, que administram a conta.
Após a repercussão do primeiro vídeo, a extensionista publicou um novo relato no domingo (19), fazendo um apelo para que quem enfrenta problema similar busque ajuda profissional ou, ao menos, converse com alguém. A mensagem foi reforçada por ela na entrevista.
Fonte: G1 Globo
Source: G1 Globo

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