Transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade.
Era 14h de uma sexta-feira quando começaram a ser pedidas as primeiras corridas através de um aplicativo de transporte em Fortaleza. Desde então, uma década se passou de um serviço que transformou a mobilidade urbana da cidade. Disputas em meio à regularização, mudanças na estrutura da cidade e impacto no transporte público são alguns dos principais pontos envolvidos na atuação de um serviço que, hoje, é indispensável na capital.
A Uber começou a operar em Fortaleza em 29 de abril de 2016, há 10 anos, com a modalidade UberX (exclusiva de carros) – que segue disponível. No ano seguinte, começou a operar a empresa 99 na capital cearense, também com carros. Em junho de 2021, começaram a circular as motos da Uber na capital. Um ano depois, aconteceu a chegada da categoria 99 Moto.
Esta é a primeira reportagem de uma série publicada pelo g1 que aborda os aspectos e impactos do serviço de corridas por aplicativos de transporte em Fortaleza ao longo de uma década.
Transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade. — Foto: Louise Anne Dutra/SVM
A chegada dos aplicativos de transporte teve impacto direto na mobilidade urbana e na estrutura da cidade. Diminuição dos usuários de transporte público (também evidenciada pela pandemia de Covid-19), espaços dedicados a esses condutores e alterações urbanas estão entre as mudanças da última década.
O serviço também trouxe oportunidades de ocupação a profissionais que buscavam formas alternativas de renda. A princípio, eram irregulares, pois não havia cobrança de impostos ou regras burocráticas a obedecer. Hoje, regularização e representação da categoria buscam garantir direito aos profissionais que ainda convivem com rotinas exaustivas de trabalho.
Uma década depois, é impensável imaginar a mobilidade urbana de Fortaleza desconectada dos aplicativos de transporte. A efetivação da categoria na cidade, no entanto, encarou diversos obstáculos que passaram por insegurança pública e disputa de espaço com taxistas (regulares e piratas).
Transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade. — Foto: Louise Anne Dutra/SVM
Evans Sousa é motorista por aplicativo em Fortaleza desde 2016. — Foto: Fabiane de Paula/SVM
Evans Sousa é motorista de aplicativo na capital desde setembro de 2016, então acompanhou de perto todas as mudanças no serviço. Engajado na categoria, hoje ele é presidente da Associação dos Motoristas de Aplicativo do Ceará (AMAP-CE).
“Trabalhar com aplicativo se torna viciante. Você não consegue mais sair. Por quê? A maioria dos trabalhos, você tem que seguir aquele tempo, horário, carga horária. Você recebe só aquela quantidade por mês. E, com as chegadas do aplicativo em Fortaleza, te deu a possibilidade de você ganhar mais. O motorista se acostumou com aquilo, de fazer seu próprio valor, de fazer a sua carga horária. No começo, foi muito bom. Sendo totalmente diferente do que é hoje”, destacou.
Os aplicativos se tornaram a principal forma da fiscal ambiental Fernanda Araújo se locomover na cidade. “Atualmente eu uso aplicativos de transporte para basicamente tudo que eu vou fazer na minha vida. Para trabalho eu uso aplicativo de transporte, academia, às vezes para o mercado. Para tudo que eu puder usar, eu estou usando”, disse a jovem de 28 anos.
Ela já foi usuária do transporte público na capital, mas, há seis anos, optou por usar exclusivamente os carros de aplicativo.
Transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade. — Foto: Louise Anne Dutra/SVM
Carros e motos por app em Fortaleza cumprem papel fundamental na mobilidade urbana. — Foto: José Leomar/SVM
O serviço das empresas como a Uber e 99 travou muitas batalhas até conseguir se consolidar como um elemento basilar da mobilidade urbana de Fortaleza. Novidade, com promessa de independência financeira desburocratizada, as plataformas de transporte paravam na desconfiança popular e nos conflitos com taxistas, que temiam perder espaço e clientes na capital.
“Na chegada deles [aplicativos de transporte] em 2016, que o poder público fazia apreensões, porque não era regulamentado, então havia um grande embate: os aplicativos, principalmente o Uber, era a solução da vida do motorista, e o poder público era tido como o grande vilão”, lembrou George Dantas, presidente da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor), órgão municipal responsável pela regulamentação da categoria.
Em 8 de junho de 2018, foi aprovada uma lei municipal que estabeleceu as regras para os aplicativos de mobilidade em Fortaleza. No mesmo ano, Uber e 99 regularizaram a situação com o poder público.
“A regulamentação trouxe uma coisa positiva da documentação. Você saber que aquele motorista passou pela análise, é um motorista que foi verificado. Como o meu carro é vistoriado para poder prestar um bom serviço para o cliente. Antigamente, era qualquer carro, carro amassado, carro sujo. Hoje você tem que ter um padrão no carro. E a cada ano, esse carro passa pela vistoria”, explicou Evans Sousa.
O presidente da Etufor afirmou que, “com a profissionalização, esses profissionais começaram a buscar os seus direitos. Lá atrás, basicamente, o direito que se mostrava era o direito de poder trabalhar. Existia dentro da categoria, que se formava muito aquele discurso da liberdade econômica, de que eu posso trabalhar de qualquer jeito, eu já tenho o meu carro e eu posso fazer. Hoje, com a profissionalização, essas pessoas já têm uma consciência muito maior do que é bom, do que é ruim”.
Transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade. — Foto: Louise Anne Dutra/SVM
Regularização do serviço de transporte por aplicativos em Fortaleza aconteceu em 2018. — Foto: Fabiane de Paula/SVM
Fabrício Ribeiro, diretor de Operações da 99, apontou, entre as melhorias, a usabilidade dentro do app para o passageiro e também para o motorista. “Na área de segurança, a gente criou muito algoritmo que faz modelo preventivo e atua melhor na prevenção de incidentes. Os próprios algoritmos que fazem a precificação, campanhas para os usuários, etc, tudo isso avançou bastante”, disse.
“Isso inclui tanto preços mais baixos para o passageiro, mas também muito investimento de motorista para fazer mais campanha. Então, a gente opera com margem estruturalmente mais baixa, porque foi uma das cidades do Nordeste que a gente viu que tinha mais potencial de crescer”, destacou o representante da 99.
Fabrício, inclusive, revelou que Fortaleza tem uma população de usuários do transporte por aplicativo maior que a média nacional. A região metropolitana da capital tem mais de 1 milhão de usuários da 99.
A Uber informou, em nota, que a segurança é um compromisso prioritário. “O Brasil conta com o primeiro Centro de Desenvolvimento Tecnológico da empresa na América Latina, inaugurado em 2018. Em 2024, anunciamos um investimento de R$ 1 bilhão ao longo de cinco anos para a expansão dele”, disse a empresa.
“Atualmente, contamos com 480 profissionais de tecnologia e esperamos alcançar 700 colaboradores até o final de 2025. Grande parte dos novos recursos de segurança que chegam ao aplicativo estão sendo desenvolvidos no país, com a participação de engenheiros e especialistas brasileiros”, complementou.
Transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade. — Foto: Louise Anne Dutra/SVM
Prefeitura de Fortaleza inaugurou “Paradinha”, espaços destinados exclusivamente a condutores de app. — Foto: Prefeitura de Fortaleza/Reprodução
O grande fluxo de passageiros e a efetivação das plataformas de aplicativo na capital fizeram surgir necessidades de adaptação na cidade. Um exemplo é o espaço destinado a motoristas de aplicativo no Aeroporto Internacional de Fortaleza. O local já foi palco de diversos conflitos entre motoristas de aplicativo, taxistas e condutores irregulares.
O crescimento do serviço das corridas por aplicativo em Fortaleza impactou também a dinâmica do transporte público da capital. Em 2025, Fortaleza registrou cerca de 520 mil passageiros utilizando o transporte público por dia, uma queda drástica em relação a 2015, quando esse número chegava a 1,15 milhão — conforme o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus).
Em 2026, a capital inaugurou espaços inéditos dedicados exclusivamente aos condutores de aplicativo: as “Paradinhas”. A primeira Paradinha foi inaugurada no bairro Papicu, no viaduto da Avenida Engenheiro Santana Júnior com a Avenida Santos Dumont. A segunda está localizada sob o viaduto das avenidas Pontes Vieira e 13 de Maio, sobre a Avenida Aguanambi, no bairro de Fátima. Esta é exclusiva para motos e bicicletas.
A Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) disse que a ampliação dos serviços por aplicativo trouxe novas dinâmicas para a mobilidade urbana. Com isso, o órgão tem aprimorado o planejamento viário com foco na otimização do tráfego e na segurança, adotando medidas como o reforço da sinalização, além da intensificação da fiscalização preventiva em pontos estratégicos.
Já com relação à variação do fluxo de veículos, a AMC disse que está relacionada a diversos fatores, como o crescimento da frota, a retomada das atividades econômicas e mudanças no comportamento da população. “Embora existam indícios associados ao maior uso dos veículos particulares e redução do uso do transporte público, não é possível atribuir esse crescimento exclusivamente ao uso de aplicativos sem a realização de estudos específicos”, explicou o órgão municipal.
Source: G1 Globo

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