Dunas de destino turístico no Ceará escondem vila soterrada há mais de 40 anos.
Opção turística no litoral oeste do Ceará, a praia de Tatajuba, na cidade de Camocim, esconde um passado pouco conhecido. Sob a areia, estão vestígios de dezenas de casas de pescadores e agricultores de uma comunidade tradicional, que foi soterrada por dunas móveis entre os anos de 1970 e 1980.
A região está inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA), determinada pela Lei Municipal Nº. 559/94 e que foi redefinida em abril deste ano. Marcada por dunas, lagoas e próxima ao mar, ela também faz parte da Rota das Emoções, famoso destino turístico que também inclui Jericoacoara e o Delta do Parnaíba.
🏝️ Entenda: a vila de Tatajuba foi soterrada paulatinamente na década de 70 , porque foi construída no meio do trajeto de dunas móveis, comuns no Ceará. O movimento das areias é algo natural, acontece por causa do vento e da falta de vegetação. Ele forçou a população a migrar para áreas vizinhas (entenda mais abaixo.)
À esquerda, igreja na vila que foi soterrada. À direita, imagens atuais do distrito — Foto: Reprodução e Reprodução/Prefeitura de Camocim
Moradores relatam que a igreja foi uma das primeiras construções a ser engolida. Em seguida, a escola, o posto de saúde e dezenas de casas também desapareceram, em uma das ocorrências naturais mais notórias da história do Ceará.
Quem ajuda a contar essa história é João Batista dos Santos, pescador conhecido como Tita. A mãe de João morava na vila e precisou deixar sua casa ainda grávida. Não há dados oficiais de quantos moradores foram atingidos, mas o pescador relembra o que ouvia da mulher:
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Após a antiga vila desaparecer sob a areia, os moradores buscaram abrigo em comunidades vizinhas, formando o que hoje intitula-se como distrito de Tatajuba, reconhecido em em 12 de novembro de 2025, por meio da lei Lei Municipal nº 1716/2025.
O território com mais de cinco mil hectares é composto por quatro vilas: Tatajuba, Baixa Tatajuba, Vila Nova e São Francisco.
Apesar de estar sob proteção ambiental, o território absorve parte do público e do ritmo da Vila de Jericoacoara, conhecida internacionalmente pelas belezas naturais, rede hoteleira, bares e restaurantes. De acordo com a prefeitura de Camocim, a cidade recebeu 892.251 turistas em 2025.
Moradores temem, no entanto, os efeitos negativos desse ‘hype’ de Tatajuba, em especial sobre o meio ambiente, a pesca artesanal e a agricultura.
➡️ Nesta reportagem, entenda o que levou uma vila inteira a ser soterrada e como está hoje a região de Tatajuba, local com características naturais singulares, alvo de especulação imobiliária e turismo desenfreado.
Infográfico – Ceará tem vila soterrada por areia das dunas — Foto: Arte/g1
Não há um consenso sobre em qual ano a vila de Tatajuba começou a ser povoada. Porém, moradores mais antigos relatam que no início do século XX já era possível ver os primeiros núcleos familiares.
O pescador João Batista de Paula, conhecido como João ‘Errado’ na região, vive há 78 anos no distrito e acompanhou o início desse processo. Ele morava ao lado da antiga vila e lembra do desespero dos vizinhos:
Morador há 78 anos de Tatajuba, João Batista comenta chegada de turistas na região
Na época, a região era mais conhecida como Cabaceiras. O nome Tatajuba veio depois, em homenagem a um tipo de árvore muito comum na região. A partir de 1970, a vila passou a ser atingida com mais força pelas dunas móveis – acúmulos de areia que se deslocam a partir da ação dos ventos. Esta não foi, no entanto, a maior transformação que João acompanhou:
A igreja da vila de Tatajuba foi uma das construções a ser engolida por dunas móveis. — Foto: Arquivo pessoal
Quem concorda com ele é o xará João Batista, conhecido como ‘Tita’. Ele conta que a família reconstruiu a vida a cerca de um quilômetro do antigo local. Atualmente, além de pescar, Tita desenvolve um trabalho comunitário na Associação de Moradores de Tatajuba, presidida por Angelaine Alves, sua companheira.
Pescador e uma das lideranças comunitárias, João Batista comenta soterramento de vila.
As dunas móveis podem ser encontradas em boa parte da costa semiárida brasileira, especialmente em locais desprovidos de vegetação ou pouco cobertos por plantas. Elas são um tipo bastante dinâmico de ecossistema, já que os ventos movem as dunas, fazendo com que mudem de posição ao longo dos anos.
Estas informações aparecem no Atlas do Assentamento Estadual e Reserva de Desenvolvimento Sustentável da Planície Costeira de Tatajuba, um estudo desenvolvido pelo professor Jeovah Meireles, do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC).
O documento também detalha que, em Tatajuba, as dunas se destacam como um dos elementos paisagísticos mais notórios, apresentando tamanhos e formas diferentes – como formato de lua crescente ou de “C”.
Nesse cenário, uma duna móvel se destaca: a Duna Encantada, que tem cerca de 30 metros de altura e área de 120.000 m². “Este gigante arenoso acumula aproximadamente 140.000.000 m³ de areia”, descreve o Atlas. Veja abaixo:
Esta é a ‘Duna Encantada’, duna em Tatajuba com mais de 30 metros de altura. — Foto: Reprodução/Governo do Ceará
Jeovah explica que o soterramento da vila ocorreu porque a comunidade foi instalada diretamente na rota natural de migração das dunas, em uma região mais alta e plana, conhecida tecnicamente como “tabuleiro”:
“Ali, as dunas maiores podem migrar até 12, 15 metros por ano. Mas, as dunas menores podem migrar até 30 metros por ano. Então, todo o sistema ali é regido por essas conexões: zona de praia, campos de dunas, canais de marés, sistemas de fluxos fluviais e as lagoas costeiras”, explica Jeovah.
Conforme o especialista, durante o segundo semestre do ano, os ventos ficam mais fortes e transportam grandes quantidades de areia da faixa de praia em direção ao interior do continente. Como a vila foi construída no meio desse trajeto, ela acabou funcionando como uma “barreira” física.
Jeovah, que estuda a região há 26 anos, ainda alerta para o risco de construir na região, especialmente grandes projetos turísticos não sustentáveis:
“As comunidades tinham espaço e território para a convivência com os campos de dunas, em especial até os anos 1980, pois o litoral do Ceará é praticamente um único campo de dunas. Então, as pequenas comunidades ficavam ali bailando, vamos dizer assim, de acordo com a regência das dunas”.
Professora de história comenta soterramento de antiga vila em Tatajuba
Para a professora de História Sheila Abreu, que mora na vila de Tatajuba há cinco anos, é importante entender que existe, na região, uma natureza mutável e que a comunidade de Tatajuba já nasceu com esse ‘aspecto transitório’:
O soterramento da vila de Tatajuba é somente um capítulo dessa história. Após a ocorrência ambiental na década de 80, os moradores se depararam com outra ‘ameaça’. Em 2001, eles descobriram que o terreno onde estão as quatro vilas foi comprado por uma grande empresa de turismo e, na época, as terras não eram regularizadas:
“Ela tinha o projeto de construir um condado ecológico para receber turistas com cinco campos de golfe. Isso significava que todas as pessoas que moravam nas quatro vilas, principalmente nas vilas mais próximas da praia, teriam que sair, ou seriam expulsas. Foi aí que a Associação dos Moradores entrou com dois processos na Justiça para interditar qualquer tipo de construção de empresas e anular as matrículas”, explica Angelaine, presidenta da Acomota.
Esse imbróglio durou mais de 20 anos e ainda está em processo de resolução. O reconhecimento das terras ocorreu em setembro de 2023, quando o Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará (Idace) e a Defensoria Pública da União (DPU) fecharam acordo para que a maior parte da terra pleiteada fosse doada ao Idace. Com isso, ficou sob a tutela do Estado o perímetro onde as comunidades vivem e trabalham. A propriedade, agora pertencente ao Estado, tem um total de 2.459.734 hectares.
Imagens da antiga comunidade mostram relação entre a comunidade e as dunas. — Foto: Arquivo pessoal
Mesmo com uma parte do problema resolvido, a população de Tatajuba reconhece que o distrito não é mais o mesmo. Com paisagem paradisíaca e localizado próximo de Jijoca de Jericoacoara, que abriga a famosa Vila de Jeri, Tatajuba teme o turismo desenfreado e especulação imobiliária.
Dentre os desafios, estão áreas que viram alvo de invasões e degradação em razão do trânsito de veículos. Conforme os estudos conduzidos pelo professor Jeovah Meireles, o crescente interesse de empresários cercando terrenos de forma irregular ou adquirindo terrenos na região acende um alerta para futuros conflitos.
Em fevereiro de 2024, uma operação coordenada entre o Idace, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Superintendência Estadual do Meio Ambiente e a Polícia Militar do Meio Ambiente (BPMA) derrubou cercas e placas de comercialização de terrenos públicos na área de Tatajuba. Não há informação de quantas cercas e placas foram retiradas.
Sobre o tema, Alexandre Maia, procurador-geral de Camocim, explica que a cidade conta com uma Autarquia de Meio Ambiente atuante, responsável por analisar e barrar empreendimentos que podem causar impactos na natureza da região.
O foco atual da gestão municipal, segundo Alexandre, é ‘conter um avanço desordenado’ de construções: “Nenhum empreendimento vai ser instalado em Tatajuba sem licenciamento ambiental. Se estão localizados em áreas de preservação permanente, não podem ocupar”, afirma Maia.
➡️ De acordo com o Governo federal, o licenciamento ambiental é um procedimento administrativo obrigatório, instituído pela Política Nacional de Meio Ambiente (Lei 6.938/81), que autoriza a localização, instalação, ampliação e operação de empreendimentos que utilizam recursos naturais ou podem causar impactos ao meio ambiente.
O distrito está inserido em uma APA, que foi redefinida em 15 de abril de 2026, pela lei municipal 1728/ 2026. A região passou a ser denominada de Área de Proteção Ambiental Municipal Tatajuba-Guriú. O local possu um perímetro de 43,97 km.
A mudança visou adequação às diretrizes do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). O objetivo dessa redefinição, segundo a lei, é “assegurar uso sustentável dos recursos naturais, proteger a diversidade biológica, ordenar a ocupação humana e promover a melhoria da qualidade ambiental em seu território”.
Com a atualização na legislação, passa a ser obrigação da Autarquia Municipal de Meio Ambiente (AMA) da cidade:
Tatajuba, em Camocim, é destino de turistas de todo o Brasil. — Foto: Reprodução/Prefeitura de Camocim
Foto aérea mostra Nova Tatajuba, uma das vilas do distrito. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Camocim
Distrito de Tatajuba fica na cidade de Camocim, localizada a cerca de 350 quilômetros de Fortaleza. — Foto: Reprodução/Idace
Foto de Igreja em Nova Tatajuba, uma das vilas do distrito. A Vila Nova recebeu parte dos moradores desabrigados após o soterramento na década de 70. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Camocim
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Source: G1 Globo

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