Vinte e oito anos após o assassinato de Ivaneide Barbosa Fernandes Silva, em Milhã, no interior do Ceará, o filho dela, Bruno Fernandes, que tinha dois anos à época do crime, foi habilitado como assistente de acusação no processo contra o homem apontado como autor. O réu, que fugiu da cadeia semanas depois do crime e permaneceu foragido por décadas, ainda será julgado pelo Tribunal do Júri.
A decisão de Bruno ocorreu após a repercussão do feminicídio da jovem Ana Kévile, em Deputado Irapuan Pinheiro, no interior do Ceará, em abril. Ao acompanhar o caso, ele procurou o Ministério Público do Ceará para verificar a possibilidade de responsabilização pela morte da mãe. Em junho deste ano, foi informado de que a ação penal permanecia em curso e teve sua habilitação aceita pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) para atuar como assistente de acusação.
Conforme os autos, Ivaneide foi morta com dois golpes de faca na porta do bar onde trabalhava, por volta das 21h30 de 9 de julho de 1998. O acusado teria comprado a faca pouco antes do ataque. Até recentemente, Bruno e os três irmãos acreditavam que o crime havia prescrito, o que impediria a aplicação de pena. A Justiça, porém, interrompeu a contagem da prescrição ainda em 1998.
O caso voltou a avançar em 2016, quando o Ministério Público expediu novo mandado de prisão e solicitou informações a diversos órgãos para localizar o suspeito. Com base no domicílio eleitoral, o endereço dele foi atualizado e o homem acabou preso em 2023, no estado de Rondônia. Quando a família soube da captura, o investigado — hoje com 63 anos — já havia obtido liberdade provisória e passou a responder ao processo monitorado por tornozeleira eletrônica. O nome dele não foi divulgado pela família.
Entre as testemunhas já ouvidas na ação penal estão a ex-companheira do acusado, que relatou que ele chegou em casa sujo de sangue após o crime, e o comerciante que teria vendido a faca utilizada no ataque. A figura do assistente de acusação é prevista em ações propostas pelo Ministério Público em que a vítima não pode se defender, podendo ser exercida por pais, cônjuges, filhos ou irmãos. Nessa função, Bruno poderá auxiliar a acusação no julgamento, formular perguntas e indicar novas testemunhas. Segundo ele, familiares de Ivaneide não haviam sido chamados a depor em juízo após a conclusão do inquérito policial.
Aos 30 anos, Bruno é ouvidor-geral adjunto do Município de Milhã. Quando Ivaneide foi morta, ela deixou duas filhas, de 1 e 4 anos, e um filho mais velho, de 9. As irmãs de Bruno vivem em São Paulo; ele e o irmão moram em Milhã. O ouvidor relata ter recebido apoio após a perda e diz que recorreu a fotografias para guardar lembranças do rosto da mãe. Na busca por informações, preferiu inicialmente não compartilhar as novidades com os irmãos para evitar falsas expectativas; depois, dividiu as descobertas com a família, que recebeu as notícias com surpresa.
O réu será submetido a júri popular na comarca de Solonópole, em data ainda não definida. A família aguarda que o julgamento ocorra sem nova demora.
Fonte: G1
Source: G1

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