O que os túmulos contam: visitas no Cemitério São João Batista revelam crimes, lendas e a história de Fortaleza

O Cemitério São João Batista, no Centro de Fortaleza, tornou-se cenário de visitas guiadas e aulas que exploram fatos históricos, crimes que marcaram época e relatos de supostos fenômenos sobrenaturais. Com 160 anos de atividade, o espaço, inaugurado em 1866, é apontado por pesquisadores como um “museu a céu aberto” e integra uma tendência de necroturismo já vista em São Paulo, Buenos Aires e Paris. Nomes que batizam avenidas, bairros e cidades do Ceará, como Desembargador Moreira, Raul Barbosa, Senador Pompeu, Antônio Sales e Rodolfo Teófilo, podem ser encontrados entre seus túmulos. Atualmente, parte dos grupos enfrenta restrições para agendar novas excursões devido a obras estruturais; as datas são divulgadas nas redes sociais de cada projeto. Dividido em três planos e com nove hectares, o cemitério preserva marcas de conflitos sociais e de momentos decisivos da história do Ceará. Segundo o historiador e filósofo Thiago Roque, que atua no projeto Fortaleza Necrópole ao lado do historiador Sandoval Matoso, o primeiro plano, logo na entrada, concentra sepulturas de famílias mais ricas, com túmulos suntuosos adornados por anjos e símbolos sacros. À medida que se avança, aparecem os sepultamentos de outras camadas sociais e de não católicos, como judeus e protestantes. A localização do cemitério, então fora do perímetro urbano, também é parte da narrativa histórica, explorada em experiências sensoriais que convidam os visitantes a observar a direção dos ventos que cortam suas alamedas. O Fortaleza Necrópole realiza aulas no São João Batista desde 2024 e, a partir de outubro de 2025, passou a promover também atividades noturnas, com atores que representam personagens históricos. Entre os destaques propostos pelo grupo estão: Caio Prado, presidente da Província do Ceará pouco antes do fim do Segundo Reinado, que morreu de febre amarela aos 35 anos e tem um túmulo com base de pedras importadas do Egito e uma coluna cortada, símbolo de vida interrompida; e seu vizinho Tomás Pompeu, o Senador Pompeu, nascido em Santa Quitéria, jornalista, professor e sacerdote, cuja sepultura traz a assinatura do ceramista responsável. Também se sobressaem os barões: José Francisco da Silva Albano, o Barão de Aratanha, sepultado no mausoléu da família Albano, próximo à capela — posição tida como de prestígio —, onde imagens de Maria e Maria Madalena parecem verter lágrimas devido à ação do tempo; e Guilherme Chambly Studart, o Barão de Studart, médico, geógrafo, historiador e antropólogo, único entre os barões cearenses com título outorgado diretamente pela Igreja, por decisão do papa Leão XIII. Em uma rua mais discreta está o túmulo de Ana Triste, esposa de Tristão Gonçalves, líder da Confederação do Equador assassinado e enterrado às margens do rio Jaguaribe. Ana, que adotou o sobrenome “Triste” após a morte do marido, é lembrada como uma das mulheres apagadas da história, apesar de seu engajamento nas articulações políticas do movimento que buscava uma república independente no Norte. Já o ossuário Ao Cristão Desconhecido, guardado pela imagem de São Miguel, homenageia pessoas não identificadas no sepultamento e reúne restos mortais de indivíduos marginalizados, retirantes das secas, vítimas de grandes ondas de doenças infecciosas e desaparecidos. A excursão Mistérios de Fortaleza, conduzida por Kris Oliveira (do canal Conhecendo o Sobrenatural) e pelo estudante de história Renan Silva (do canal La Tumba – Túmulos dos Famosos), surgiu de uma amizade começada em 2023 nas redes sociais e, desde 2025, leva cerca de 70 pessoas a passeios diurnos e noturnos. O roteiro mescla história e curiosidades, além de atrair interessados por lendas urbanas e relatos espirituais. Renan desenvolve um projeto pessoal de catalogação de todos os sepultamentos do cemitério para entregar à administração e, nessa busca por nomes, resgata histórias de pessoas comuns e crimes que comoveram a cidade. Kris afirma realizar investigações paranormais com sua equipe e relata que o cemitério é menos “carregado” do que hospitais, onde, segundo ela, haveria maior trânsito de espíritos logo após a morte. Entre os pontos visitados pelo tour estão o túmulo da Menina Lúcia, que morreu em 1917 aos 2 anos. Brinquedos, ursos de pelúcia e flores são deixados por quem lhe atribui intercessão em orações; placas de agradecimento mencionam supostos milagres. Lúcia era irmã de Luiza Távora, ex-primeira-dama do Ceará, inicialmente sepultada no mesmo jazigo. Outro destaque é João Nogueira Jucá, adolescente de 17 anos que morreu em agosto de 1959 após salvar várias pessoas — inclusive crianças — durante um incêndio de grandes proporções na Casa de Saúde Dr. César Cals; ele sofreu queimaduras graves após a explosão de um tubo de oxigênio e faleceu uma semana depois, no Dia do Estudante. O Corpo de Bombeiros instituiu uma medalha com seu nome. A sepultura de Arina Castello Branco, que morreu aos 17 anos em 1908 após o parto, chama atenção pelo obelisco de mármore com a narrativa de seus últimos momentos e frases atribuídas a ela: “Querido, não chore”, “Mamãe, v. cria minha filhinha?” e “P. Lumesi, a que horas eu morro?”. Já o túmulo de Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, está no cemitério desde 1914, mas foi localizado em 2020 pelo historiador Licínio Nunes de Miranda, em parte porque a lápide traz apenas seu nome completo, sem menção ao apelido. A confirmação veio do título de major inscrito na lápide. O caso reabre discussões sobre o apagamento da história negra no Ceará. Após a abolição, ele tornou-se Major Ajudante de Ordens do Secretário Geral do Comando Superior da Guarda Nacional do Estado do Ceará e foi um dos principais nomes do Movimento Abolicionista Cearense. Desde 2023, o Coletivo Vai Veno promove atividades de educação patrimonial e mediação histórica com linguagem acessível. “O patrimônio histórico não existe sem as pessoas”, afirma o historiador Mailton Granja. No São João Batista, o grupo aborda vida, morte e dinâmicas urbanas, além da criação dos primeiros cemitérios de Fortaleza — medida que enfrentou oposição da Igreja no século 19, quando famílias tradicionais ainda eram sepultadas no interior de templos como a Igreja do Rosário. Em excursão conduzida em julho por Diego Costa e Val Hermes, o grupo recorda o desmaio da esposa do presidente da província, Casimiro José de Moraes Sarmento, durante uma missa na Igreja do Rosário, episódio associado aos “miasmas” segundo a lógica higienista da época e que impulsionou a construção de cemitérios fora do perímetro urbano. Na trilha Terra e Vida, o coletivo destaca o antigo cemitério São Casimiro, inaugurado em 1849 no Morro do Croatá, área de dunas móveis onde hoje fica o Complexo Cultural Estação das Artes. O local foi alvo de críticas após uma epidemia de cólera, quando moradores atribuíam aos ventos vindos do cemitério a propagação de doenças, além de sofrer com a invasão de areias. Outro ponto é o túmulo do Boticário Ferreira, Antônio Rodrigues Ferreira, figura popular do século 19 que abriu uma botica e presidiu a Câmara Municipal por 18 anos consecutivos, sendo decisivo na contratação de Adolfo Herbster como arquiteto municipal — responsável por traçar ruas de Fortaleza inspiradas no desenho de Paris. Em pelo menos dois jazigos, há referências à entidade Zé Pilintra, associada a religiões de matriz africana e cultuada como força espiritual e protetora dos pobres. Um deles fica no limite do cemitério, próximo ao muro que o separa da avenida Filomeno Gomes, e costuma receber cachaças, flores e terços como homenagens, suscitando debates sobre diversidade de credos. Outro local de memória é o túmulo de Frei Tito, inicialmente enterrado na França e transferido para Fortaleza em 1983. Com infância e adolescência na capital cearense, ele se destacou na vida religiosa pela defesa da democracia e dos direitos humanos, além da atuação no movimento estudantil. Vigiado e preso durante a ditadura militar, foi brutalmente torturado e escreveu uma carta-denúncia a instituições de defesa de direitos — apontada como o primeiro documento com denúncia pública sobre as condições de presos políticos no Brasil. No exílio, seguiu abalado pelas violências sofridas, teve alucinações com seus algozes e tirou a própria vida. O g1 Ceará mantém um canal no WhatsApp, e os organizadores dos passeios informam que novos agendamentos e conteúdos audiovisuais são divulgados em suas redes. Vídeos sobre a temática e materiais relacionados também circulam em portais locais.

Fonte: G1 Globo

Source: G1 Globo

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