Da saída do batalhão aos disparos e ao carro em chamas: a cronologia que embasou o indiciamento por morte de soldado na Grande Fortaleza

A policial militar Júlia Natália Girão e o marido dela, Antoneudo Ribeiro Lima Júnior, foram indiciados pelo homicídio do soldado Raphael Sampaio da Silva, de 27 anos, encontrado baleado e carbonizado dentro do próprio carro em 11 de agosto, em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza. Segundo a investigação, a motivação seria passional: Raphael e Júlia, ambos casados, mantinham um relacionamento extraconjugal.

De acordo com o inquérito da Polícia Civil, ao qual a reportagem teve acesso, imagens de videomonitoramento, sistemas de leitura de placas, depoimentos, exames periciais e a confrontação das versões apresentadas pelos investigados permitiram reconstruir a madrugada do crime. A perícia apontou que Raphael levou três tiros na cabeça e teve o corpo queimado posteriormente. No veículo, foram encontrados uma algema no banco traseiro e um recipiente com gasolina abandonado próximo ao automóvel.

Júlia foi presa no mesmo dia por contradições em seu depoimento: ela afirmou que estava com Raphael quando ambos teriam sido atacados por criminosos e que foi amarrada em um matagal. Câmeras, porém, registraram a policial circulando em liberdade no período em que disse estar imobilizada. Antoneudo também foi preso naquele dia, com documentos falsos e munições.

Cronologia do caso, segundo a investigação:
– 16h do dia 10/8 às 2h do dia 11/8: Raphael e Júlia trabalham juntos no 16º Batalhão da Polícia Militar.
– Entre 1h48 e 1h58 (11/8): encerramento do serviço de ambos é registrado pelo 16º BPM.
– 2h19 (11/8): a dupla vai ao estacionamento do batalhão, entra no Hyundai i30 da vítima e deixa a unidade.
– 2h36 (11/8): o carro de Raphael passa pela Av. Jornalista Thomaz Coelho em direção ao terminal da Messejana.
– 2h40 (11/8): chegada à Rua Florêncio Fontenele, onde moram Júlia e Antoneudo.
– 2h41 (11/8): o i30 circula vagarosamente e estaciona sob uma árvore; fica parado por cerca de 21 minutos.
– 3h02 (11/8): um Chevrolet Prisma branco — posteriormente identificado como comprado por Antoneudo — posiciona-se atrás do i30 e faz manobra de marcha à ré, encostando a traseira nos dois veículos.
– 3h06 (11/8): câmeras registram clarões atrás do Prisma, interpretados pela polícia como disparos de arma de fogo, a cerca de 30 metros da casa do casal.
– 3h07 (11/8): os dois veículos deixam o local rumo à Rua Antônio Alves Ribeiro, sentido BR-116; este é o último registro dos carros juntos.
– 3h22 (11/8): o Prisma é filmado sozinho a cerca de 226 metros do ponto onde o i30 e o corpo de Raphael seriam encontrados carbonizados, já em Itaitinga.
– 3h29 (11/8): nova câmera registra o Prisma com pelo menos dois ocupantes.
– 3h32 (11/8): o Prisma retorna e entra na residência de Júlia e Antoneudo.
– 7h17 (11/8): Antoneudo conduz o Prisma até uma oficina; Júlia aparece com um vestido rosa com o qual, mais tarde, diria ter sido sequestrada; em seguida, Antoneudo sai em um Fiat Pulse vermelho.
– 7h38 (11/8): o casal é filmado deixando a filha na escola.
– 11h03 (11/8): o Fiat Pulse é visto por câmeras em Aquiraz.
– 12h01 (11/8): a polícia é acionada após moradora encontrar Júlia saindo de um matagal em Aquiraz, supostamente amarrada, alegando sequestro.

Ainda em 11 de agosto, Júlia foi presa em flagrante enquanto prestava depoimento. Antoneudo foi detido mais tarde naquele dia. Em 13 de agosto, na audiência de custódia, a Justiça decretou a prisão preventiva dos dois por suspeita de envolvimento no homicídio; eles seguem detidos.

A investigação aponta que o casal teria agido em conjunto e de forma consciente, com divisão de tarefas. Por isso, foram indiciados por homicídio qualificado, por recurso que dificultou a defesa da vítima e por motivo torpe, atrelado ao contexto de ciúme e relacionamento extraconjugal. O indiciamento significa que a Polícia Civil vislumbrou elementos para representar contra os suspeitos; o caso segue para o Ministério Público do Ceará, que pode ou não concordar e oferecer denúncia. Se a Justiça aceitar a denúncia, os investigados viram réus e serão julgados.

A defesa de Júlia, representada pelo advogado Walmir Medeiros, informou que pedirá a soltura da agente. A defesa de Antoneudo, da advogada Karla Borges, disse que não comentaria o caso.

Segundo testemunhas, Raphael e Júlia costumavam se encontrar após o serviço e justificavam aos cônjuges o retorno tardio com supostas ocorrências. As mesmas fontes relataram que Antoneudo sabia do caso e demonstrava intenso ciúme. Raphael também teria dito a pessoas próximas que ambos pretendiam assumir publicamente o relacionamento e se divorciar. Uma testemunha afirmou que Júlia não estava inicialmente escalada para o plantão entre 10 e 11 de agosto, mas insistiu em integrar a equipe de Raphael, chegando a oferecer R$ 50 para trocar a escala.

A análise policial indica Antoneudo como provável autor dos disparos, com base na dinâmica observada: o ocupante do Prisma — que, segundo a investigação, havia sido comprado por Antoneudo em setembro de 2025 — desce do veículo e, em seguida, surgem três clarões rápidos, compatíveis com os três tiros na cabeça identificados pela perícia. Câmeras depois registram o Prisma próximo do local onde o i30 foi incendiado com Raphael dentro. Exame papiloscópico encontrou impressões digitais de Antoneudo no interior do Prisma, e laudo médico três dias após o crime apontou lesão com características de queimadura de segundo grau no punho direito dele. Os registros audiovisuais, contudo, não permitem identificar de forma conclusiva quem efetuou os disparos.

Para a Polícia Civil, Júlia atuou como agente ativa: buscou trabalhar no plantão de Raphael, deixou o batalhão ao lado dele, acompanhou a vítima até perto de sua residência e, após o homicídio, apareceu novamente com Antoneudo, além de sustentar versão incompatível com as imagens. Ela afirmou ter sido sequestrada e retirada pelos cabelos para o porta-malas de um carro desconhecido, mas não explicou quando teria trocado a farda pelo vestido rosa que usava ao ser vista em diferentes locais na manhã do crime. Câmeras flagraram o casal deixando a filha na escola e indo à oficina onde o Prisma foi deixado, o que contraria o relato de que ela estaria amarrada no período.

O caso segue em apuração pelo Ministério Público e pelo Judiciário. Até eventual recebimento de denúncia e julgamento, os investigados permanecem sob a presunção de inocência.

Fonte: G1

Source: G1

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