A Sé Catedral Nossa Senhora da Penha, em frente à Praça da Sé, é exemplo de arquitetura colonial no Crato. — Foto: Claudiana Mourato.
Caminhar pelo centro do Crato, na região do Cariri cearense, é cruzar séculos de história gravados em fachadas, portas e grossas paredes de pedra. Antes de se tornar vila, no século 18, a região era habitada pelos índios cariris. A partir de 1714, o local começou a receber colonizadores vindos da Bahia, de Sergipe e Pernambuco, atraídos pela paisagem e fertilidade do solo, e ocupando as sesmarias (lotes de terras doados). Neste sábado (20), Crato completa 262 anos.
O arquiteto e pesquisador Waldemar Arraes explica que o antigo aldeamento indígena foi capitaneado pelos frades do hospício de Nossa Senhora da Penha. Para se transformar em vila, precisou seguir regras.
“A cidade nasceu a partir desse aldeamento. Depois se transformou em vila e cidade, no século 19. Existiam decretos da coroa portuguesa do século 18. Depois que foram criadas as vilas no nosso país, a maioria desses aldeamentos se transformou em vila com a expulsão dos jesuítas pelo marquês de Pombal. E a coroa tratou de transformar esses aldeamentos em vilas, e elas tinham que ser ordenadas, organizadas”, conta Waldemar Arraes.
Dessa primeira arquitetura não sobrou muito. As edificações foram se transformando ou foram demolidas ao longo dos anos. Mas o que restou ainda é admirado pelos visitantes, como a antiga Casa de Câmara e Cadeia, o principal edifício do período colonial da cidade. Foi construído em 1877, no encontro da Praça da Sé com a Rua Senador Pompeu no Centro da cidade. Com o tempo, foi ressignificado.
Confira a evolução do prédio ao longo do tempo:
A Casa de Câmara e Cadeia abriga o Museu de Arte Vicente Leite, no pavimento superior, e o Museu Histórico do Crato – J. de Figueiredo Filho, no térreo. Possui estilo neoclássico. Antes de ser convertido em espaço museográfico, abrigou Prefeitura, Fórum, Junta Militar e Delegacia de Polícia. O prédio é tombado em nível estadual.
Outro exemplo de arquitetura colonial é a Sé Catedral Nossa Senhora da Penha, em frente à Praça da Sé, bem próximo à antiga Casa de Câmara e Cadeia. Antes de se tornar um templo imponente, foi uma pequena capela de tapera.
Confira a evolução da igreja ao longo do tempo:
O historiador Iaré Lucas Andrade contextualiza que “a arquitetura colonial é uma representação da maneira de pensar e da formação de uma identidade de um determinado período. O Brasil se forma a partir de um olhar muito para fora. As elites locais se estruturam olhando sempre para o modelo europeu. Então, as regiões que foram colonizadas por portugueses e espanhóis têm muito desse reflexo de uma formação arquitetônica com base naquela forma de pensar do século 16 e do século 18”.
No início do século 19, foi dada uma formatação ao prédio. “São colunatas muito sóbrias, portas muito bem definidas em seus arcos. É bastante diferente, por exemplo, daquelas igrejas mais barrocas de Minas Gerais, de Salvador. Não há aquela conotação de ouro, de ostentação, mas há uma formulação muito precisa daquela ideia. A elite da região do Cariri, a elite cratense queria se espelhar na modernidade europeia. Isso faz com que a igreja tenha essa formatação aqui, arcos inteiros, colunas muito sóbrias, imponência”, explica.
A Sé Catedral do Crato é avaliada pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) em um processo de tombamento.
Com o crescimento da cidade, outras transformações. A Estação Ferroviária do Crato foi inaugurada em 8 de novembro de 1926. Esteticamente, por ser uma obra da primeira metade do século 20, o prédio reflete um período de transição, um ecletismo arquitetônico. O local foi cenário de eventos significativos da história política e social da região.
O edifício foi construído para servir de abrigo temporário aos passageiros. As ferrovias eram determinantes no crescimento e desenvolvimento econômico das cidades. A antiga Estação Ferroviária do Crato possuía intensa movimentação. Mas com a decadência das ferrovias, a Estação fechou em 1989, mais de 60 anos depois da inauguração, e transformou-se em espaço de cultura do município. É tombado pela Secretaria de Cultura do Estado.
Conhecido como Complexo da RFFSA, a Estação Ferroviária possui três estruturas: Casa do Agente, Terminal de Passageiros e Casa de Bagagem. Aguarda também uma avaliação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para tombamento.
“Os bens ferroviários são os bens que a gente chama de valorados, um processo de tombamento diferenciado. No caso da estação do Crato, o pedido que está nas nossas mãos é um pedido para tombamento, que é um pedido que demora, que tem uma análise”, afirma a superintendente do Iphan Ceará, Cristiane Buco.
O aposentado Raimundo Modesto de Brito na frente do Cassino Sul Americano, no Crato (CE). — Foto: Claudiana Mourato/TVM Cariri
No Centro, também encontramos outro prédio histórico que guarda muitas histórias, o Cassino Sul Americano. Fica na praça Siqueira Campos, nesse espaço funcionou o cinema da cidade. Hoje, abriga um restaurante. A fachada é eclética com molduras em arco abatido e janelas com venezianas.
A parte interna foi inteiramente modificada. Somente a fachada permanece com detalhes da época em que foi inaugurado. O prédio aguarda um processo de tombamento pela Secretaria de Cultura do Estado.
Não é incomum encontrar na praça quem recorda momentos vividos nesse espaço. O aposentado Raimundo Modesto de Brito aproveita as horas vagas na praça e relembra a época em que frequentava o cinema: “Assistia filmes com a minha primeira esposa, era outro tempo, tempo bom, de gente feliz!”
Ainda é possível também ver casarões antigos; alguns ainda são moradas. Outros abandonados e demolidos. O imóvel onde a comerciante e revolucionária Bárbara de Alencar residiu na antiga Rua Grande, cujas paredes presenciaram as articulações para a Revolução de 1817, é um prédio remanescente do primeiro ciclo de ocupação urbana da cidade.
Embora com valor histórico inestimável, o prédio não possui mais as características da época. Hoje, sedia a Secretaria Estadual da Fazenda. Uma escultura em homenagem à heroína foi assentada em frente à antiga residência para recordar.
A falta de conscientização é um dos motivos para que esse rico acervo seja esquecido, o que gera um alerta para historiadores, gestores e arquitetos. De acordo com o secretário de Cultura do Crato, Wilton Dedê, a administração municipal está iniciando a catalogação dessas estruturas para o lançamento de um almanaque didático para a população.
“Alguns prédios têm sido derrubados, outros nós perdemos. Tem gente que só muda a pintura, com esses a gente consegue conversar, passar pra eles a importância de se preservar. O melhor que a gente tem no Crato é que cada um desses espaços guarda uma história e quando um prédio desse desaba, a história também vai, fica mais difícil das pessoas lembrarem, comentarem”, lamenta Dedê.
Crato 262 anos: a luta para salvar a memória arquitetônica da cidade
Para reverter esse cenário de esquecimento, Waldemar Arraes e um grupo de arquitetos desenvolvem um trabalho científico inovador de educação patrimonial. Através de fotografias antigas, outros mapeamentos e dados históricos, o grupo realiza a reconstrução virtual tridimensional do Centro Histórico do Crato, recortando o período do final do século 19 até os anos 1920.
O projeto de maquete digital realista ganhará, em breve, uma sala exclusiva em um dos museus da cidade, permitindo que os cidadãos façam passeios virtuais no Crato do passado. Trata-se de uma tentativa pedagógica de mostrar o que foi perdido, conscientizar os moradores atuais e provar que o patrimônio histórico não é um estorvo antigo, mas um ativo econômico capaz de gerar turismo, cultura e riqueza para a “Princesa do Cariri”.
Para o arquiteto André Sampaio, que também faz parte do projeto, esse trabalho demonstra o quanto a arquitetura sofre influências culturais, sociais e políticas ao longo do tempo: “Esse trabalho serve como um lembrete de que a gente ainda possui material de valor em relação ao patrimônio, ainda tem uma arquitetura que vale a pena estudar, uma arquitetura que vale a pena preservar, para que as próximas gerações tenham a possibilidade de conhecer aquilo que a gente vem trabalhando para resgatar ou, de certa forma, manter, preservar”.
“Que isso possa ser um pontapé inicial para todo o trabalho que possa ser realizado daqui para frente, é material de pesquisa que vale muito a pena ser continuado. Todas as edificações têm a sua identidade, e nessa identidade tem um conjunto de histórias, tem um conjunto de narrativas que as trouxeram até essa forma final, esse resultado que a gente vê como centro histórico, tanto do Crato como de várias outras regiões”, conclui André.
“Além do Centro Histórico, a gente está desenvolvendo a parte de peças gráficas de toda a evolução da Casa de Câmara e Cadeia. Então, desde a primeira datação até como ela se encontra nos dias de hoje, tem tanto a questão de plantas e de forma que vai facilitar o entendimento para as pessoas”, reforça o arquiteto Maykon Dantas da Silva
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Source: G1 Globo