Áudios e mensagens obtidos pela Polícia Civil indicam que os irmãos Ronivaldo Rocha dos Santos, 40, e Evangelista Rocha dos Santos, 34, planejaram fugir separadamente após o ataque com foice que decepou as mãos da jovem Ana Clara de Oliveira, em Quixeramobim, na madrugada de 1º de maio. Ambos foram presos no mesmo dia, em cidades diferentes, e indiciados por tentativa de feminicídio.
Segundo a investigação, Ronivaldo e Ana Clara, que mantinham relacionamento há cerca de dois anos, ingeriram bebida alcoólica e iniciaram uma discussão. Em determinado momento, quando Ronivaldo deixou a casa, Ana Clara lançou uma pedra que atingiu o carro dele. Câmeras de segurança registraram a discussão na rua e mostram Ronivaldo correndo atrás da vítima; ele desiste e sai. Cerca de 20 minutos depois, retorna de carro com o irmão Evangelista. Conforme a Polícia Civil, Ronivaldo entregou a foice a Evangelista, que pulou o muro da residência, aproximou-se da janela e pediu para conversar. Ao entrar, desferiu golpes: o primeiro decepou a mão direita da vítima; a mão esquerda ficou semi-amputada, e houve cortes profundos em ombro, perna e cotovelo.
Vizinhos acionaram a polícia e uma ambulância. Ana Clara foi levada ao Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, onde passou por uma cirurgia de emergência de 12 horas para reimplante da mão, com participação de cerca de 15 profissionais de microcirurgia e cirurgia da mão. O procedimento foi considerado bem-sucedido, com restabelecimento do fluxo sanguíneo, e ela deixou a UTI sete dias depois, indo para a enfermaria. No sábado (9), foi necessária nova intervenção de aproximadamente 8 horas porque o dedo mindinho da mão esquerda reimplantada não apresentava fluxo sanguíneo. Nesta segunda (11), a paciente passou por cirurgia programada de recuperação do tendão da perna, também lesionado no ataque. Ela seguirá em observação para avaliar possíveis enxertos de pele em áreas com necrose e deverá fazer fisioterapia para reabilitação completa.
Após o crime, de acordo com diálogos obtidos pela polícia mediante quebra de sigilo telefônico autorizada pela Justiça, por volta das 2h Evangelista pediu dinheiro a Ronivaldo: “Manda só mil reais que vou sumir”. Em resposta por áudio, o irmão afirmou: “A culpa toda vai subir pra mim. Eu que tenho que sumir do mapa, [tu] se faz de doido é? Loucura que tu fez isso aí, era só ter dado umas mãozadas nela pra ela respeitar as cara […] Como é que vou mandar [dinheiro], se tudo vai sobrar é pra mim”. Em outro momento, Evangelista pediu que Ronivaldo fosse à sua casa buscar um caderno. Não há informação se o dinheiro foi transferido.
Evangelista foi preso ainda no dia 1º, por volta de 10h30, em casa, em Quixeramobim. Ronivaldo foi detido por volta das 13h, em Madalena, a cerca de 63 quilômetros do local do crime. Ambos foram levados à Delegacia de Quixeramobim e autuados por tentativa de feminicídio, estando atualmente custodiados em um presídio em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.
Para a Polícia Civil, os diálogos sobre fuga mostram ausência de preocupação com o estado da vítima e foco exclusivo nas consequências penais. A investigação aponta “propósito feminicida” e premeditação no retorno de Ronivaldo à casa com o irmão, além de participação ativa de Ronivaldo como mandante, ao supostamente ter entregado a foice e gritado: “Pode matar ela, pode matar”. Ao fim do ataque, segundo os autos, quando Evangelista saiu com a foice, Ronivaldo perguntou: “Tu matou?”. O irmão respondeu: “Sim, já era”. Na sequência, Ronivaldo disse: “não era pra ter feito isso não, macho” e “tu acabou com a nossa vida”; Evangelista retrucou: “tu que mandou, já era”. A polícia também afirma que Ronivaldo mantinha sentimento de posse sobre Ana Clara, de 21 anos.
Os depoimentos colhidos indicam versões distintas. Evangelista confessou o crime, disse que levou a foice por conta própria, afirmou que “já estava na maldade” e relatou que os gritos do irmão o influenciaram a golpear a vítima, acreditando que ela havia morrido. Já Ronivaldo declarou ter discutido sobre supostas transferências bancárias da sua conta para a da vítima, motivo pelo qual a chamou de “ladrona” em um dos vídeos, e alegou não se recordar de grande parte dos fatos por ter ingerido álcool, incluindo o momento em que teria gritado “pode matar ela”.
A Polícia Civil indiciou os dois por feminicídio tentado, com agravantes de meio cruel (uso de foice) e de recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima. O indiciamento foi encaminhado ao Ministério Público do Ceará (MPCE), que analisará o caso e poderá oferecer denúncia.
Fonte: G1
Source: G1

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