O Ministério Público do Ceará (MPCE) pediu à Justiça que os irmãos Ronivaldo Rocha dos Santos, 40, e Evangelista Rocha dos Santos, 34, presos pelo ataque a Ana Clara de Oliveira, 21, sejam condenados por tentativa de feminicídio e ao pagamento de R$ 97.260 em danos morais. O valor pode ser alterado pela autoridade judicial, e ainda não há prazo para julgamento. A denúncia foi apresentada nesta quinta-feira (14) pela promotora de Justiça Juliana Santos, da 2ª Promotoria de Justiça de Quixeramobim.
O crime ocorreu na madrugada de 1º de maio, em Quixeramobim (CE). Segundo o MP e a Polícia Civil, após uma discussão entre o casal, Ronivaldo buscou o irmão. Evangelista pulou o muro da casa da vítima e, com uma foice, iniciou os golpes. Imagens de câmeras de segurança mostram a sequência: primeiro, uma discussão na rua e uma perseguição; depois, cerca de 20 minutos mais tarde, o retorno de Ronivaldo, agora com Evangelista. De acordo com os autos, Ronivaldo entregou a foice ao irmão, que chamou a vítima na janela e, ao entrar, desferiu os golpes. O primeiro decepou a mão direita; os seguintes provocaram a semi-amputação da mão esquerda e cortes profundos no ombro, perna e cotovelo. Vizinhos ouviram os pedidos de socorro e acionaram a Polícia e uma ambulância. Ana Clara foi submetida a cirurgia de emergência para reimplante das mãos no mesmo dia e segue em recuperação.
Mensagens e áudios obtidos pela Polícia Civil após a quebra de sigilo dos telefones, autorizada pela Justiça, revelam a tentativa de fuga e o diálogo entre os irmãos. Por volta de 2h, Evangelista escreveu: “Manda só mil reais que vou sumir”. Em resposta, Ronivaldo afirmou em áudio: “A culpa toda vai subir pra mim. Eu que tenho que sumir do mapa […] Loucura que tu fez isso aí, era só ter dado umas mãozadas nela pra ela respeitar as cara”. Em outro momento, segundo a investigação, Ronivaldo gritou: “Pode matar ela, pode matar”. Vídeos também registraram a pergunta entre eles: “Tu matou?”. A Polícia concluiu que o foco de Ronivaldo, após o crime, não era a condição da vítima, “brutalmente mutilada”, mas as consequências penais para si. O órgão apontou ainda que ele mantinha sentimento de posse sobre Ana Clara, com quem convivia em união estável havia cerca de dois anos, em um relacionamento conturbado, marcado por discussões e agressões físicas.
A investigação descreve que, na noite do crime, ambos consumiram bebida alcoólica e discutiram por dinheiro, incluindo transferências bancárias que, segundo Ronivaldo, Ana Clara teria feito da conta dele para a dela. Em um dos vídeos, ele a chama de “ladrona”. No auge do conflito dentro da residência, a vítima pediu insistentemente que o companheiro deixasse a casa. Em seguida, a discussão foi para a rua; em determinado momento, Ana Clara lançou uma pedra que atingiu o carro de Ronivaldo. Ele saiu, retornou com o irmão e o levou até a residência. Evangelista declarou à polícia que levou a foice por conta própria, que “já estava na maldade” e que os gritos do irmão o influenciaram a atacar. Disse ter deixado o local por acreditar que a vítima havia morrido. Já Ronivaldo afirmou ter ingerido álcool e disse não se lembrar da maior parte dos acontecimentos, incluindo o momento do grito para matar, registrado em vídeo. Ele também relatou que Evangelista lhe pediu para buscar um caderno em sua casa e solicitou dinheiro para fugir. Não há informação se a transferência foi feita.
Evangelista foi preso ainda no dia 1º de maio, por volta de 10h30, em sua residência, em Quixeramobim. Ronivaldo foi detido por volta das 13h, em Madalena, a cerca de 63 km do local do crime. Ambos foram conduzidos à Delegacia de Quixeramobim e autuados por tentativa de feminicídio. Atualmente, estão em um presídio em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. Para a Polícia Civil, o retorno de Ronivaldo à casa, na companhia do irmão, demonstrou “inequívoco propósito feminicida e clara premeditação criminosa”, com participação ativa do primeiro como mandante, e com agravantes de emprego de meio cruel (foice) e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima.
Entre 1º e 11 de maio, Ana Clara passou por três cirurgias no Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza. A primeira, uma microcirurgia de reimplante da mão, durou cerca de 12 horas e mobilizou aproximadamente 15 profissionais, sendo considerada bem-sucedida, com restabelecimento do fluxo sanguíneo. Sete dias após o procedimento, a vítima deixou a UTI e foi para a enfermaria. No sábado (9), houve nova intervenção, de cerca de oito horas, após a equipe constatar ausência de fluxo sanguíneo no dedo mínimo da mão esquerda reimplantada. Na segunda (11), ela passou por cirurgia programada para recuperação do tendão da perna, também lesionado pelos golpes. A paciente permanece em observação para avaliar a necessidade de possíveis enxertos de pele em áreas com necrose. Ela já apresentou alguns movimentos após o reimplante, mas deverá realizar fisioterapia para a reabilitação completa.
Fonte: G1 Globo
Source: G1 Globo

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