A empresária cearense Giselle Matias, 25 anos, relata ter sido vítima de violência física e psicológica durante uma viagem à ilha de Martinica, no Caribe, onde havia sido contratada como au pair por uma família. Segundo ela, após desentendimentos, o pai das crianças para quem trabalharia teria retido seu passaporte e celular e cometido agressões. O caso é acompanhado pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), por meio do Consulado-Geral do Brasil em Caiena, na Guiana Francesa.
Giselle afirma que conheceu o homem, que se apresentava como canadense, por meio de uma plataforma on-line que conecta famílias e interessados em trabalho de au pair, sem intermediação de agências. A negociação, diz ela, incluiu a promessa de acompanhá-lo com os dois filhos — um menino de 7 anos e uma menina de 11 — em férias na Martinica e, depois, seguir com a família ao Canadá, onde haveria a regularização do visto. Os custos do trajeto de Fortaleza até a Martinica, com chegada à cidade de Le Marin no início de julho, teriam sido pagos pelo anfitrião. De acordo com a brasileira, a comunicação com a família era em inglês — idioma que ela estuda, mas no qual tem domínio básico — e dependia de ferramentas de tradução.
Ainda conforme seu relato, antes de viajar ele prometera que ela ficaria sozinha em uma casa alugada, enquanto a família permaneceria em um iate. Ao chegar, porém, todos estavam instalados na mesma residência, o que a deixou desconfortável. No segundo dia, o anfitrião teria demonstrado descontentamento ao saber que ela tem duas filhas — informação que não constava no cadastro na plataforma. Depois disso, Giselle diz ter se sentido excluída das atividades e ouviu do contratante que não a teria escolhido se soubesse desse dado. Ela afirma ter proposto retornar ao Brasil e que havia sido garantido, previamente, o custeio da volta caso não se adaptasse. Após os desentendimentos, relata que ele se recusou a pagar a passagem de retorno.
Menos de uma semana após a chegada, Giselle conta que, abalada, tomou diversos comprimidos no quarto. No dia seguinte, ainda sob efeito da medicação, o anfitrião teria exigido que ela deixasse a casa. Ela diz que não encontrou o celular e o passaporte e que o homem declarou estar com os itens e não devolvê-los. Ao tentar descer as escadas com as malas, caiu e, segundo depoimento dado à polícia local, foi arrastada com puxões de cabelo do primeiro andar até o térreo. À reportagem, ela disse não saber se outros golpes ocorreram nesse momento ou se os hematomas decorreram da queda. Em seguida, o homem e as crianças teriam saído e não voltaram.
Moradoras da região a socorreram e acionaram uma ambulância. No hospital, exames constataram fratura no pé; ela segue usando bota imobilizadora. Com um telefone emprestado por um enfermeiro, conseguiu contato com o marido no Brasil. Após a alta, foi acolhida na residência de uma voluntária brasileira vinculada ao consulado, que a ajudou com trâmites e a acompanhou à polícia da Martinica para formalizar a denúncia de furto do passaporte e do celular, além de relatar as violências. Posteriormente, segundo Giselle, o anfitrião devolveu os documentos e o aparelho, mas várias mensagens teriam sido apagadas.
Enquanto ainda estava na Martinica, ela divulgou vídeos sobre o caso em 16 de julho e organizou rifas no perfil de sua confeitaria em Itapipoca, arrecadando quase R$ 5 mil para auxiliar nos custos. Cerca de uma semana depois, recebeu do consulado a informação de que teria a passagem de volta para Fortaleza. O retorno ocorreu em 20 de julho, quando ela reencontrou a família.
Em nota, o MRE informou que acompanha o caso e presta assistência consular por meio do Consulado-Geral do Brasil em Caiena, mas não detalhou a natureza do apoio, citando direito à privacidade. A pasta reiterou que o atendimento consular é feito a partir do contato do cidadão ou de seus familiares e que não fornece dados pessoais de requerentes.
Giselle, que é proprietária de uma confeitaria em Itapipoca e planejava, no futuro, viver fora do país com o marido e as filhas, fez um alerta para que interessados em programas de intercâmbio não aceitem ofertas que “parecem boas demais para ser verdade”. Ela reconhece ter se precipitado ao viajar sem falar o idioma local. A brasileira afirma que pretende ingressar com ação judicial contra o pai da família que a contratou.
Programas de au pair geralmente preveem que jovens vivam com uma família no exterior para auxiliar no cuidado com as crianças, em troca de moradia, alimentação e um pagamento mensal, com foco em aprendizado de idioma e imersão cultural. Para entrar no Canadá, viajantes brasileiros precisam apresentar passaporte válido e uma autorização prévia emitida pelo governo.
Fonte: G1 Globo
Source: G1 Globo

Deixe um comentário